E o encontro arrancou-nos dos sonhos impotentes (Atílio Alencar Moura Correa, Leonardo Foletto e Leonardo Palma)





Atílio Alencar Moura Correa, Leonardo Foletto e Leonardo Palma

… há uma relação necessária entre o trabalho afetivo e as redes sociais, as formas comunitárias, a capacidade relacional, e que isso comporta um tipo de engendramento recíproco: o trabalho afetivo cria essas redes e ao mesmo tempo é criado por elas. (Peter Pál Pelbart)

A mobilização dos jovens produtores de cultura dos circuitos de festivais independentes está promovendo uma visível mudança de eixo na cena cultural brasileira. Apanhando essa mudança e ao mesmo tempo protagonizando-a, o autodenominado Circuito Fora do Eixo vem chamando a atenção e exercendo um efeito de contágio: constituir redes, fazer de cada experiência tecnologia social compartilhável e assumir o compartilhamento como prática e experiência de constituição de novas redes marcam sua trajetória.

No final de 2009 e primeiros meses de 2010, o Circuito Fora do Eixo se fez visível através de várias iniciativas de porte. Esteve no Fórum da Cultura Digital, organizado pelo Ministério da Cultura e Casa da Cultura Digital; em conjunto com Abrafin – Associação Brasileira de Festivais independentes, BMA e Casas Associadas, lançou a ferramenta e rede social Toque no Brasil; realizou no Brasil, e em algumas cidades da Argentina, da Bolívia e do Uruguai o Festival Grito Rock América do Sul; e lançou o portal Nagulha, só para citar uns poucos exemplos.

Com pontos espalhados por todas as regiões do país, o Circuito Fora do Eixo carrega em seu nome parte de sua proposta: romper com a tradição dos espaços consagrados, dos monopólios da difusão e das noções arcaicas de arte. Para os mais de quarenta coletivos conectados através do Fora do Eixo, toda forma de produzir cultura é válida e desejável: além da música, também o cineclubismo, o teatro, o grafite, as mídias independentes. Trabalha com a noção de artes integradas. A recusa à especialização cega é característica marcante dos ativistas do Circuito, como atesta a postura da Macaco Bong, banda cuiabana que obteve repercussão ampla com seu primeiro disco, de nome sugestivo: Artista Igual Pedreiro. Não é raro ver os três músicos, minutos antes de subirem ao palco, carregando equipamentos e entrevistando outros músicos.
Em coerência com esta lógica, pautada pela colaboração e pela ação em rede, inúmeros ativistas passaram a agir coletivamente, conectados a outros agentes de forma horizontal. Garantem assim o convívio comum entre linguagens diversas e produzem, por sua vez, ambientes cada vez mais propícios para o compartilhamento de bens culturais, informação e tecnologia, ao mesmo tempo em que descobrem outras formas de fazer política, de resistir e de criar.

Os jovens produtores de cultura e de conteúdo que mobilizam essas redes e iniciativas vêm das primeiras gerações que contaram com a disponibilidade da Internet como seu ambiente. Fazem uso das novas tecnologias de informação e comunicação para se organizar e criar redes. A multiplicidade de referências é matéria-prima para uma diversificada produção ‘recombinante’, o uso de múltiplas linguagens explicita-se na riqueza de suas expressões criativas. Criatividade nutrida a acesso e lutas por acesso, o que modifica o sentido de “autoral” no movimento, longe da noção de autor que está na base da noção jurídica de “direito autoral”, por exemplo. A meta da profissionalização da cadeia produtiva da cultura ressignifica-se como aprofundamento da experiência comum, da qualificação, das dimensões relacionais e operacionais, jamais um retorno aos especialismos segmentados das velhas divisões do trabalho.

A percepção da relevância dessa dinâmica toma como referência forte um dos primeiros pontos Fora do Eixo, o Espaço Cubo de Cuiabá (MT). O Espaço Cubo antecipa, e de muitos modos se desdobra no próprio Circuito Fora do Eixo, foi laboratório de criação de muitas de suas práticas, experiências, frentes de ação, buscou e encontrou uma multiplicidade de coletivos e fez rede com eles.

No Overmundo, site colaborativo que cartografa expressões culturais de todos os recantos do país, Eduardo Ferreira publicou, em março de 2006, “Espaço Cubo no Circuito Fora do Eixo”, uma nota que dá conta da criação da Abrafin e do Circuito Fora do Eixo durante o Festival Calango de Cuiabá. Em janeiro de 2007, Eduardo Ferreira publica “Espaço Cultural ao Cubo”, artigo que faz um breve balanço histórico e ajuda a compreender a gestação de algumas das mais vigorosas experiências do Espaço Cubo e dos inícios do Fora do Eixo.

No prólogo de Filosofía de la deserción, livro sobre o comum e a comunidade, e dedicado à compreensão da lógica da multidão, publicado na Argentina pelo Editorial Tinta Limón em 2009, o filósofo, tradutor e coordenador do grupo teatral Ueinzz, Peter Pál Pelbart, nos diz:

Creo que se inventan estrategias de vida muy sutiles, que a veces tartamudean, pero a veces son sumamente afirmativas. Esto está comentado en el libro. Un grupo de jóvenes músicos de la periferia de la ciudad de Cuiabá que entendieron que están completamente excluidos de una relación con la ciudad y resolvieron agruparse, ayudarse unos a los otros, construir una red cultural alternativa, y llegaron a inventar una moneda. El proyecto se llamaba Espacio Cubo. (p.11)

Em conjunto com uma multiplicidade de expressões da cultura urbana, em grande medida aquelas que emergem das periferias das cidades e dos territórios da precariedade e das lutas por acesso aos meios de produção e distribuição cultural, esses jovens produtores de cultura, produtores de conteúdo, vivem experiências que afirmam e evidenciam a cultura urbana contemporânea simultaneamente como economia criativa, produção de riqueza e espaço de lutas por novos direitos, “cultura da convergência” e da produção de redes, e cada vez mais, enquanto “cultura digital” e da proliferação de novas relações sociais.



3 Responses to “E o encontro arrancou-nos dos sonhos impotentes (Atílio Alencar Moura Correa, Leonardo Foletto e Leonardo Palma)”

  1. Ótimo texto. Resume todo o sentimento coletivo que surge na base da sociedade que grita por arte mas não considera correto esse maisntream exclusor. Parabéns aos autores. Um abraço, Bibiano Girard

  2. Ótimo texto. Resume todo o sentimento coletivo que surge na base da sociedade que grita por arte mas não considera correto esse maisntream exclusor. Parabéns aos autores. Um abraço, Bibiano Girard




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