O anjo exterminador: o princípio do fim ou um novo começo (Cunca Bocaiúva)


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A banalidade do mal parece estar tentando tragar a emergência do novo na chave dos fenômenos extremos no Brasil. No século XX tivemos a era dos extremos plena de incertezas, no século XXI temos a era das incertezas plena de extremos. O final do filme o Anjo Exterminador sugeria um impasse tendendo ao apocalíptico, um final que não acaba. De todo modo no decifra ou devoro-te em curso o Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro estão soltos, no Brasil de Euclydes e Glauber sempre se trava uma guerra do fim do mundo e Pindorama entra em transe.


As conjunturas ultrapassam e atropelam os sujeitos, quando novas e velhas forças se movem e questionam práticas, instituições e governos, mesmo sem saber para onde ir e o que propor. Quando se convocam os “Estados Gerais”, quando se sucedem e se entrelaçam as muitas reações e movimentações, quando se formam muitas as zonas de sombra e opacidade. Repentinamente as figuras por trás do palco emergem na cena. Os resíduos e os excessos dos modos de produção e das relações sociais abrem espaços sem que deixem de aparecer vários vazios, clarões e muita fumaça. Em horas como essas o fantasma autoritário e a imagem apocalíptica se mostram, quando cai a falsa imagem que recobria o deserto do real.


Na véspera dos eventos e jornadas de junho o ovo da serpente estava se abrindo com as forças retrógradas em temas de direitos humanos, sexuais e reprodutivos. A violência no campo e na disputa sócio-espacial retornava junto com o desejo de criminalização dos jovens. Mas o movimento juvenil contra os aumentos de tarifas impediu o nascimento prematuro da velha criatura. Uma pergunta se dá em meio a um quadro de sinais contraditórios: será que a geração XXI começa a escapar da razão cínica do mundo privatizado e segregado, ou estamos diante de um salto quântico na tentativa de liquidar a reemergência da política (apesar das potencialidades das chamadas redes sociais) pela via de novos movimentos de direita? A explosão da imagem (terror e medo) existe como uma combinação entre fenômenos de psicologia de grupo/massas e uma sedução pela barbárie parece superar o acontecimento. As câmeras ficam esperando os momentos de incêndio, todos esperam o momento em que a “plebe ruge” e as forças da polícia avançam com seus novos aparatos e instrumentos de contenção não letal. Os bando de rostos cobertos se chocam contra seres com armaduras da nova era medieval. Mas todos sabem que a violência e os resíduos mórbidos explodiram porque já estavam ali (com a banalização da violência e sua fabricação como indústria que se articula com a cultura do medo e a ideologia da segurança)? O evento e suas imagens assustam se relidos pelos incêndios e depredações, numa linha de entendimento que reinterpreta e transforma a desordem em inverso simétrico da ordem. Ouço muitas perguntas sobre a hipótese que o fascismo social reforce o apoio para a exceção, entendida como um antídoto para a falência dos poderes e para a desordem.


Muitos perguntam onde está a coordenação das lutas, onde estão as lideranças, sem tentar se aproximar das novas dinâmicas horizontais? Se m perguntar qual a razão de se ouvir tão poucas vezes as vozes dos movimentos que aspiram por políticas de acesso aos direitos como o MPL? Será que quando militantes de partidos são atacados por trogloditas neonazistas, quando as bandeiras políticas e ideológicas são vistas como problemas, não estamos vendo se preparar um cenário para uma ruptura institucional? Na distância que se colocam as lentes e na forma técnica de ler as imagens pela proximidade que distorce, os governantes desaparecem encolhidos e recolhidos em seus palácios e refúgios. Mesmo quando cedem na redução das tarifas as redes não são ouvidas.


Os porta-vozes da polícia se transformam no discurso que sopra na mídia elogiando a despolitização dos jovens e manifestantes, mas nas ruas morde esperando um tempo para que seja comprovada a provocação tantas vezes repetida pelos mais diversos tipos de atores que explodem depois de um tempo em que nenhum desdobramento ou demanda parece ter se materializado. O processo não é diferente de quando as torcidas vão aos estádios e para as ruas, não é diferente das explosões derivadas de intervenções e desocupações forçadas. O quadro de segregação sócio-espacial esta contaminado lósos invisíveis e intocáveis que povoam a nossa cena urbana, com a comprovada ausência de políticas para milhares que estão no limbo social e sob o efeito da enorme possibilidade com a experiência da violência e do arbítrio jurídico e carcerário. Nesses dias se disse que o número de jovens que desistiram de procurar
emprego é próximo dos 16%, mas bastam 1% dos jovens para ocupar os vazios, para uma pequena explosão de barbárie (face ao quadro de um país como a França).


O quadro explosivo gera uma fantasia, um tipo de gozo imediato que promove a reprodução da ação de explosão com seu efeito imagético, que permite a repetição do discurso contra a os radicais e baderneiros. Por isso, temos um quadro de temor cuja amplificação indica o reforço da cultura do medo e do terror que se manifesta em todo o processo histórico de massas.


O que se pode prever de maneira quase certeira é que a manifestação pacífica tende a virar conflito violento se for acompanhada de esvaziamento ideológico e provocação política contra a ideia de formar um novo sentido para a ideia que até agora correspondia ao partido político formal. A negação do caráter posicionado e da existência de coletivos significativos confunde o bom valor da horizontalidade e da autonomia com a fragmentação e a anomia. Numa dinâmica de repetição que levará os atores ao grande medo ou a uma fadiga por falta de horizonte, que exige consultas, assembleias e processos de construção de plataformas. A velocidade e o ritmo da imagem-evento instantânea acaba colocando no ar o nosso fascínio primitivo pelo fogo, que se volta contra as edificações e a arquitetura que se supõe representar o poder, mesmo que ele se exerça em outro lugar na esfera do capital e do Império.


Muitos perguntam se vamos ter grupos extremistas e grupos criminosos se movendo e dando as cartas nas ruas, ou esta tendência é uma linha menor de força do que normalmente já vemos nas grandes cidades, onde quase diariamente vemos arrastões, incêndios de ônibus, etc. Qual será o cenário das cidades? Vamos ter a polícia violenta e a experiência de controle e exceção experimentando novas armas ou uma política cidadã? O Congresso vai abrir as portas, os prefeitos e governadores vão reconhecer o movimento ou vão tentar explorar a fragilidade e o isolamento de Dilma? A Presidenta já acenou de maneira pálida com o reconhecimento do movimento, mas será que ela não precisa de novos interlocutores?


Hoje falo metaforicamente sobre a imagem do Anjo Exterminador, posto que a ficção nos ensina muito sobre a realidade amplificada pelo medo. A questão do potencial simbólico se coloca na disputa entre o acontecimento e sua imagem. Será que podemos voltar aos fundamentos constituintes e defender o artigo 6 da Constituição como programa mínimo que nasce das ruas para colocar a questão do controle social, dos gastos e das políticas públicas? Ou será que vamos para uma reforma elitista da política que busque aprofundar a democracia autoritária, tutelada e restrita fazendo como no passado o casamento da luta contra a corrupção com a concentração de renda e o poder golpista através do regime de exceção? Será que vamos marchar incertos em um processo prolongado de crise que acentuará a bifurcação entre autoritarismo e democracia e, terá uma conclusão que pode ir do retrocesso até uma democracia ampliada? Será que um novo processo constituinte poderá resolver e atualizar os desafios de uma efetiva democratização pós-neoliberal?


A crise do neoliberalismo que destruiu as políticas e direitos de bem-estar social não tem encontrado uma esquerda capaz de formular uma agenda alternativa para o século XXI. A direita não possui um programa que possa responder além do discurso da antipolítica e da criminalização dos outros, com seus modelos carcerários e seus campos de contenção de imigrantes. Mas os muros não podem conter a contradição entre globalização de mercadorias e barreiras para as pessoas, entre turismo e migrações, entre comércio e guerra.


O ciclo da autonomia relativa da política e da centro-esquerda começa a se fechar na América Latina, não basta insistir em governar melhor a economia nacional e ampliar o mercado de massas. A força alienadora e voraz do capital financeiro globalizado cria a dívida impagável e especula com a moeda e a terra. Na esfera simbólica, na segurança subjetiva e no desejo das pessoas a imaginação humana precisa do reconhecimento. A dimensão estética ainda prevalece sobre a dinâmica ética. Os sentidos e os valores para ordenar a dimensão simbólica se colocam como tema urgente para um cenário de fenômenos extremos que exigem um esforço de coordenação. Precisamos considerar a necessidade de auto-organização das forças sociais autônomas sem desconsiderar uma posição de mediação, negociação e escuta capaz de fazer um desenho de novos possíveis, de novas alianças com base na fonte de poder constituinte que se reabre com a demanda por direitos econômicos, sociais e culturais.
Não fossem limitações pessoais e subjetivas momentâneas eu iria para a rua. A “a maior arquibancada do Brasil” pode encontrar força no texto da Constituição. Que melhor momento poderia haver para bradar com ela na mão em defesa do artigo 6? Que melhor momento para a imediata ativação de alguns dos conselhos e o esforço de implementação das decisões das conferências políticas públicas? Para o Rio poderia ser dada uma prioridade para um novo mix de transporte no âmbito urbano-metropolitano; para a implementação de políticas de direitos da juventude que podem ser sob formas flexíveis de “serviço civil voluntário”; para a retomada da política de pontos culturais e de Casas Brasil; para a articulação e implementação das prioridades combinadas do PAC de favelas com o Morar Carioca.


O avanço da democracia nas cidades brasileiras depende da escuta da voz, da participação e do controle dos seus habitantes. Já ficou clara a exigência de redefinição e modificação de prioridades nos programas de governo das cidades, de modo a poder evitar a mega exploração. O importante é barrar a direção dada ao processo de especulação usando as políticas urbanas e os projetos em curso para os grandes eventos. Mesmo a China teve que rever uma parte significativa de suas políticas para atender a uma parte das demandas do protesto social e, frente a uma crítica moral sobre os rumos dos gastos com grandes obras. Uma meta geral para a pluralidade de atores sociais é garantir mais acordos e melhores políticas, de modo a que se possa fazer um pacto de acesso e redefinição do direito à cidade.


Escrevo essa nota diante de processos extremos para dialogar com os poucos que possa alcançar no ciberespaço. Immanuel Wallerstein deu indicações uteis para os momentos da crise do sistema mundo: 1)Que o processo é longo (o “outono”); 2) Que o quadro se bifurca entre a via capitalista de Davos e a via anticapitalista de Porto Alegre; 3) Que devemos apostar no avanço na demanda por direitos; 4) Que segundo a teoria do caos o fato da brutal incerteza quanto aos resultados só pode ser contrabalançado pela certeza de que faz diferença o que fizermos e como agiremos. Nossa ação interfere nos desdobramentos e resultados.


O grande evento para o mundo é a democracia que avança no Brasil. Como diria Milton Santos, precisamos de um novo pacto cívico-político cujas bases estão esboçadas na Constituição. O manto autoritário e oligárquico precisa ser afastado em nome da justiça social e ambiental. Sendo que, o povo organizado constrói a democracia. Sei que esse otimismo e desejo parece estranho, face ao quadro fragmentado, crítico, caótico e híbrido da disputa e das escaramuças em nossas cidades.


A bandeira nacional só tem significação quando os caminhos que ela indica tem sua fonte no povo se afirma pela letra da Constituição de 1988. Esperando que não tenhamos de nos desgastar com o gozo de forma estética que apela para um maniqueísmo imagético, sem deixar de sugerir uma agenda cujas bases éticas sustentam a República Democrática. Para o que cabe fortalecer o Estado social e um programa de economia mista de novo tipo. Cabe ampliar a forma de governar, onde a democracia representativa e a democracia direta possam interagir com novas esferas em rede cibernética com projeção no espaço, construindo o direito à cidade.



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