O sonho como resistência / Carlos Meijueiro


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Não deixem de sonhar pois tudo o que estamos fazendo hoje, há meses atrás não passava de sonho.

Assim como no fim do primeiro mês, quando foi feita uma análise do que tinha acontecido dentro daquele espaço tão curto de tempo. Retorno agora ao papel para tentar falar dos dois meses seguintes que se passaram até então.

Apesar do tempo que se passou, e de muitas transformações terem acontecido nesses dois meses, essa análise mais uma vez, infelizmente vai decepcionar os pragmáticos e sua avidez por números e resultados. Trata-se de uma análise romântica que, não obstante a isso, coloca na balança e valoriza a maioria das coisas que uma análise séria e objetiva não daria nenhum valor. São elas as grandes riquezas: produção imaterial, acumulação de capital simbólico, criação de relações afetivas, resignificação de territórios, criação de espaços de convivência e construção do comum.

Comum enquanto cooperação participativa, como cultura e política como processo social que não se separa dos sujeitos em atividade, de um imaginário da revolução permanente, que começa por si mesmo, pelas formas de organização, circulação, comunicação e trabalho social e socializado.” Bruno Cava

Como disse anteriormente, muitas coisas mudaram, apesar da essência ser a mesma. Hoje são mais de 600 pessoas no grupo do facebook, cerca de 20 estão organizados na articulação, trabalhando diariamente para o funcionamento e comunicação da rede. A reunião semanal chegou a sua 12° edição, continua tendo a média de 15 participantes, e também fazendo com que novas pessoas apareçam e se conheçam.

Alguns dos que participaram ativamente no 1° mês hoje já não participam tanto, ou nada, por motivos pessoais ou por falta de tempo livre. Hoje é possível dizer que além da batalha com o conservadorismo provinciano que se instaura na Zona Norte quando se fala em cultura e novas propostas, vamos que ter que lutar também contra o tempo, melhor dizendo, a falta dele.

Nos unimos voluntariamente, através de um sentimento em comum, e sem ambições lucrativas. Trabalhamos juntos para transformar essa realidade. Acontece que cada um tem seus sonhos e ambições, além de compromissos com muitas outras coisas, a ponto de não deixar tempo de sobra para aquela iniciativa que, apesar de muito bonita e inspiradora “não põe o prato na mesa, nem paga as contas”. Na guerra do capital simbólico contra o capital real, sempre o último vence.

Portanto, muitas pessoas que até certo momento contribuíram e poderiam ainda contribuir, hoje já não podem mais participar efetivamente por falta de tempo e outros compromissos. Cabe aqueles que ficam ou que chegam conseguir pensar e montar uma estrutura sólida porém flutuante para que não aconteçam baixas no âmbito organizacional.

Por falar em novidades e pessoas que chegaram, muitas mulheres hoje fazem parte da rede, ao contrário dos primeiros encontros, e seria inevitável ressaltar a importância que elas tiveram no sentido de pensar para além da criação, formas possíveis de organização e funcionamento do trabalho coletivo.

Sobre a parceria com o SESC

Falando ainda em novidades, existe uma bem interessante, que é a gestão do projeto Geringonça, do Sesc Tijuca. Lançamos a inédita proposta de fazer uma gestão coletiva em todos os sentidos, e eles toparam. Portanto, em vez de só quatro gestores que discutem a programação e os temas dos eventos do projeto, recebendo cada um uma bolsa de 400 reais, agora somos 20 pessoas que decidem os temas e programações junto com outras 600 pessoas e mais quem quiser discutir e participar, recebendo a soma dessas bolsas e a depositando em um caixa coletivo, para que esse dinheiro seja usado em outras ações e em outros espaços (principalmente espaços públicos).

A decisão de tentar a parceria foi muito em função de dois pontos: o primeiro é garantir de antemão um espaço importante para expressão artística, sabendo que caso fosse feito um bom trabalho durante a gestão poderíamos começar a esboçar uma nova cena cultural para a região. E o segundo pela questão das bolsas que o Sesc disponibiliza para os gestores, que serão importantíssimas para as ações de continuidade fora do Sesc, nos eventos internos que estaremos organizando. A idéia é que pessoas invadam o Sesc, conheçam os trabalhos que estão sendo apresentados, conheçam os autores, conheçam o trabalho do Norte Comum e aproximar os que queiram pensar a continuação daqueles trabalhos para além daqueles muros.

Conclusão

Como disse no início do texto, são ideias ainda muito no começo. Estamos nos organizando e organizando ações mas, o que parece mais simples que é falar sobre o que fazemos ainda é muito complicado. O que fazemos só nos faz sentido do ponto de vista sentimental mesmo. É sempre difícil responder a pergunta sobre o que somos, o que fazemos e o que queremos.

A resposta poderia ser: queremos tudo o que pudermos fazer dentro da nossa essência, sem que seja pervertida, mantendo sua estrutura horizontal, aberta e colaborativa. Sempre visando a construção de políticas públicas de cultura autônomas ao estado, através da criação do comum. Seremos sempre a favor de tudo o que colabora para tal. Portanto, somos a favor das lutas de direito pela moradia, das ocupações de espaços públicos, dos ambulantes, dos piratas, da distribuição livre de conhecimento, enfim, contra tudo aquilo que cerceia o acesso ao conhecimento, aos bens culturais e aos direitos humanos.

Nossos únicos canais de comunicação são o email, que não é tão utilizado, e o facebook, onde se dá 97% da nossa troca de informações. Outras formas de comunicação tem de ser descobertas. Apesar de o facebook ser uma ótima ferramenta para a propagação na rede, para fins mais objetivos de diálogo em grupo ainda é muito problemático. Importantes trabalhos com software livre e em copyleft ainda devem ser desenvolvidos para poder abrir, expandir e compartilhar esses conhecimentos.

A idéia de uma “cidade comum” sugerida por Giuliano DjahDjah em uma das edições do Espiral Terra começa a tomar forma em alguns pontos. Pode-se ver a formação de uma “rede do comum” com a criação de diálogos entre iniciativas como a do Olimpi(c)leaks (direito do comum), do Pontão da UFRJ, a UNINOMADE, Norte Comum e a do Ocupa-Rio, como exemplo. Dentre tantas outras que já existem e outras que vão existir.

O trabalho é árduo, e a guerra contra a escassez de tempo e a necessidade de autonomia financeira é duríssima. Conciliamos essas necessidades com a vontade e o sonho de transformar o mundo num lugar melhor, menos desigual, mais humano. Começamos a regar nosso próprio quintal que estava podre. Sementes foram jogadas, esperamos que os vizinhos de rua, bairro e cidade se inspirem.

Na força das mãos, essa estrada de paralelepípedos colocados um a um vai aumentando. Não conseguimos ver o que nos espera mais a frente, mas estamos seguindo, guiados por sonhos que nos alimentam de esperanças e de resistência. Estamos nos conhecendo, nos divertindo e produzindo nesse resto de tempo que criamos para nossos sonhos.

Apontamos os holofotes do horror à alegria, e iluminamos todas as suas manifestações, de lutas e de festas. A alegria é a esperança que nos mantém sonhando e acreditando.



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