Bondes de Santa Teresa e a Acumulação das Tragédias Anunciadas / Marta Peres e André Barros


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BONDES DE SANTA TERESA E A ACUMULAÇÃO DAS TRAGÉDIAS ANUNCIADAS

Uma rápida volta pela pitoresca pracinha do Largo das Neves, em Santa Teresa, recentemente, num sábado, horário de almoço, nos deu ideia da situação em que o bairro se encontra: portas dos estabelecimentos fechadas, em plenas férias escolares, época em que o turismo nacional e internacional costumava fervilhar a pleno vapor, com bares e ruas lotadas de gente. Este deserto comprova o quanto o bonde é importante para o turismo, comércio, nutrindo de vida o lugar. Sem o bonde, a morte anunciada é do bairro.

Vejamos um pouco da trágica história do bonde: os moradores `das antigas` contam que 19 bondes circulavam a um intervalo pontual de 10 minutos e todos já andaram no estribo. Há muito, o bonde vem sendo sucateado e esses mesmos moradores não aliviam nenhum dos governadores desde a década de 70.

No governo Garotinho, foi iniciada uma trágica experiência chamada Veículos Leves sobre Trilhos (VLT), sem que se tenha avisado aos moradores que eles seriam suas próprias cobaias. A fracassada experiência dos VLT continuou durante o governo Sérgio Cabral, após terem sido recebidos, em 2004, do Banco Mundial, 22 milhões de reais. A verba seria destinada à recuperação do sistema e restauração dos 19 bondes, mas o que aconteceu foi a implementação de um sistema que não tinha como dar certo. O VLT foi projetado para áreas planas e a troca pelos novos trilhos foi um verdadeiro desastre tanto para os bondes históricos quanto para os VLTs, apelidados pelos moradores de ‘Frankestein’. Esses veículos eram muito pesados para as ladeiras do bairro e faziam um barulho irritante nas curvas. Os motorneiros chegavam a jogar areia sobre os trilhos para os veículos não deslizarem. Cada VLT teria custado um milhão e os moradores serviram para testar essa aventura tecnológica.

Os novos trilhos também não foram construídos para os históricos bondes. Os antigos foram levados, destruídos e seus restos vendidos como sucata para ser derretida. Mesmo assim, foi necessário trazer dois dos históricos bondes para dar conta de um sistema praticamente destruído, pois, nos VLT, duas pessoas já haviam morrido. Uma, porque o bonde desceu sem freio e a professora foi lançada do VLT para ser atropelada por um ônibus, e outro, porque o bonde sacodiu e arremessou o turista francês pelo gradil abandonado dos Arcos da Lapa.

A AMAST, Associação de Moradores de Santa Teresa, fez de tudo: palestras no Conselho Regional de Engenheiros e Arquitetos, nas Igrejas do bairro, assembléias nas praças, todas com a presença de autoridades do Estado e da Central, empresa que administra os bondes.

O Secretário de Transporte Júlio Lopes tinha pleno conhecimento do abandono do bonde e consciência de que outras pessoas poderiam morrer, mas, além de não ter feito absolutamente nada, defendia a privatização corriqueiramente. O argumento elitista usado era de que o bonde era muito barato, sessenta centavos, e ainda que os moradores não queriam pagar, andando no estribo. Mas poucos sabem que as empresas de ônibus pagam apenas 0,01% de imposto por cada passagem.

Esse abandono com o objetivo da elitização/privatização terminou na morte de 6 pessoas e 50 feridos, muitos com enorme gravidade. O bonde desceu a ladeira sem freio mecânico e o motorneiro tentou salvar seus passageiros até sua própria morte. Dois dias depois, o Secretário Júlio Lopes convocou a sua amiga mídia e, como se fosse polícia, promotor e juiz, disse que o culpado pelas mortes havia sido o motorneiro Nelson. Quase 4 meses depois, o inquérito policial não foi concluído e o Ministério Público não denunciou Júlio Lopes pelas 50 tentativas e 6 homicídios, considerando que, quando deixou, conscientemente, os bondes circularem sem a menor condição, ainda mais depois da morte de duas pessoas, o Secretário assumiu o risco de produzir aquele resultado trágico.

No dia 20 de outubro, a AMAST foi recebida pelo Prefeito da cidade em seu gabinete. Eduardo Paes informou que está negociando a municipalização do bonde com o governador Sérgio Cabral, mas quer receber a Central saneada, já que é grande o passivo da empresa. Enquanto o bonde está parado, seis ônibus vão circular a sessenta centavos, fazendo o mesmo trajeto e serão pintados na forma dos bondes. O Prefeito falou que não tem posição fechada sobre a privatização, apesar de ser esta sua posição ideológica, mas o bonde terá a fiscalização de um Conselho Gestor com a participação dos moradores, sem abrir mão de uma administração para executar e assumir a responsabilidade sobre os bondes.

Há pouco tempo, uma barca Rio-Niterói colidiu no instante da chegada à Praça XV e vários passageiros se feriram. A solução encontrada pelo governo estadual foi aumentar a passagem de R$ 2,80 para R$ 4,40, mas, apesar do subsídio de 24 milhões do Estado, os passageiros vão pagar R$3,10 a partir de janeiro de 2012. Inaugura-se, assim, a institucionalização da gestão da mais-valia do terror, onde empresas acumulam mais renda sobre tragédias anunciadas como os homicídios nos bondes de Santa Teresa, os acidentes dos trens da supervia e as barcas.

O histórico bonde é o transporte moderno, que não polui, anda na cadência do bairro e é democrático, pois pobres e ricos circulam pelo mesmo fluxo da cidade. A bioluta do bonde comum de qualidade gerido com a participação da comunidade continua.

ANDRÉ BARROS e MARTA PERES



  • Luis

    Concordo inteiramente com o texto. Infelizmente é no que dá com um governo de direita.

  • Luis

    Concordo inteiramente com o texto. Infelizmente é no que dá com um governo de direita.




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