OcupaRio: Repressão, Autogestão e Rua / Luis Carlos de Alencar


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Luis Carlos de Alencar

Já chegamos ao décimo dia de OcupaRio e seguimos adiante. Na semana que antecedeu à ocupação, havia a questão da resistência – sabíamos que a guarda municipal agiria por achar que a prefeitura detém a competência para legislar sobre o uso do solo urbano. Depois de tensa abordagem logo no segundo dia, dissolvida depois de muita negociação, pressão e união, essa ameaça já não se faz presente. Os guardas constantemente transitam pelo nosso entorno, batem papo com um ou outro acampado e até escutam de canto d’ouvido os arremedos das assembléias.

Várias assembléias ocorreram para que a autogestão se iniciasse com entrosamento satisfatório. Alguns grupos de trabalho (GT) foram fundamentais para o amadurecimento da dinâmica da Assembléia. O GT Processo, de Atividades. de Comumincações, de Arte, o Queer, todos eles ampliaram o alcance da OcupaRio. Mas a parte crucial para o acampamento são o GT Infra (cuida da expansão das barracas, da viabilização de novas aquisições tecnológicas para os demais GT etc), o Alimentação (garante uma refeição e lanches durante para todos os acampados e passantes e moradores de rua) e o Segurança (atua em rondas de duas horas)

A autogestão fora pautada em todas as assembléias até o quarto dia. A essa altura, ninguém mais aguentava discutir somente os problemas dos GT. A maturidade da articulação entre os GT garantiu que uma nova dinâmica fosse experimentada. Até agora está dando certo. Assembléia geral ocorre aos aos sábados e uma menor, afeita somente aos GT, acontece nas quartas. Qualquer problema que atinja um ou mais GT simultaneamente poderá ser diretamente resolvido, sem mais delongas de assembleísmo. As atividades dos GT se fortaleceram com essa autonomia e agora eles é que estimulam as ações nascidas na Ocupa. Há ainda iniciativas individuais, sem necessidade de respaldo dos GTs. E também as atividades de grupos, que não são nem indivíduos nem GT, como o Zeitgeist, os negrianos, os de permocultura, de estêncil.

Depois de quatro dias, um outro aspecto veio à tona: a realidade de rua. Como tal, falo de um dispositivo: as dinâmicas, os saberes, os corpos, os poderes, os conflitos, as harmonias e as diacronias, as economias simbólicas que circulam no espaço da rua, de modos diferentes, questionam a noção de território e repercute diretamente a tensão entre a identidade do movimento e sua impossibilidade de identificação.

A minha percepção da OcupaRio é que ela consiste na intensificação do fluxo da cidade em um determinado espaço. A praça da Cinelândia foi sacudida, tonificada, bombardeada, se transformou em uma área onde seus conflitos, sentidos, disputas, políticas, estéticas se concentraram e ganharam um relevo maior. Porque entram em contato, em choque, em ressonância, correm em paralelo, enfim, potencializam-se e se intensificam, na medida em que esse fluxo opere segundo a matriz da ocupação: horizontal, autogestionária e plural.

A realidade de rua, por sua vez, implica choques com reverberações imprevisíveis. Imaginem a classe média branca, os universitários, os passantes, os hippies artesãos, os anarcos, os drogaditos de crack, os bebuns, a guarda municipal, os exus de diversas proveniências, todos convivendo juntos numa mesma praça. Acontece que a realidade da rua já está lá antes de qualquer mobilização da Ocupa. E tem suas regras, suas formas de resolução de conflitos, de sociabilidade, onde o Estado e seu fetiche do Estado Democrático de Direito não tem vez.

Num acampamento de ocupações tradicionais, os grupos buscam exercer uma autoridade sobre o território gestionado. São estabelecidas regras pelo coletivo. Desrespeitadas, isto pode ocasionar a expulsão de seus membros. No entanto, na OcupaRio, a situação é de outra natureza. Ou melhor: de várias naturezas. A praça como referência de atuação espacial não permite a demarcação territorial para o exercício da política. Da Ocupa, a política emana para a praça, para as ruas, para o entorno. Quanto mais potencializar o seu caráter de fluxo, maior a sua reverberação para outros confins (sem falar que a Ocupa também existe na internet). Também a lógica da praça não possibilita a expulsão de qualquer membro, porque não dá pra definir os “de dentro” e os “de fora”. Quem pode expulsar de uma praça quem quer que seja? E depois? Vai manter o pária afastado com uma linha imaginária que ele não poderá cruzar?

Se a Ocupa em uma praça intensifica o fluxo, também o conflito é potencializado: grupos diferentes, perspectivas e vivências distintas, interesses e sentidos diversos. Ali se tonificam as assimetrias sociais e raciais, os fascismos, a violência. Eles não irão desaparecer com a Ocupa, mas ao contrário, serão encarados como nunca antes, no corpo-a-corpo dia e noite. Agora já não dá para fechar o vidro do carro ou fazer das leis de rua a verdade absoluta. Tudo está em choque.

Ilustro com uma das crônicas diárias que vivenciamos na Ocupa. Noutro lugar, uma moradora de rua atirou uma pedra na cabeça de outro que dormia. Depois disso, ela veio para a Ocupa e participou das atividades ao longo do dia. Dois colegas da vítima vieram no encalço e aguardaram hora oportuna. Com o tempo, notou-se que ela estava com a costela quebrada. Alguém chamou a SAMU e, ante a ameaça do justiçamento, a guarda municipal interveio no acampamento para protegê-la. O homem: “Seu Guarda, é o senhor quem vai levá-la para a ambulância? O senhor sabe que ela não irá chegar lá, né? Isso aqui é a lei da rua. Aí no acampamento mandam vocês, aqui fora manda a rua…”. Durante todo o episódio, houve intensa mobilização e discussão dos acampados ali presentes. Algumas pessoas queriam dispensar a guarda e a SAMU e administrar a situação, outros ponderaram que o melhor seria ela ser tratada e ter uma chance de escapar, ao ser levada pela SAMU. E houve uns poucos que disseram que ela deveria pagar pelo que fez. O bom senso ganhou e escoltaram-na para a ambulância. O homem se atirou com um pedaço de pau e tentou arrebentar a mulher. Terminou detido por mais de dez guardas e levado preso. A postura da Ocupa foi de não nos metermos na rixa, exceto para garantir que a mulher fosse levada até a ambulância.

E aí? O que fazer? Não há solução ideal que pudesse ser tomada naquele momento. Apesar de tudo, vi que a Ocupa não negou o problema: viveu-o. Refletiu, pensou, tentou demover os vingadores de sua intenção, alguns conversaram com a mulher, os guardas replicavam que nós havíamos aberto um precedente para o morador de rua, que agora eles iriam se escamotear por ali.

No entendimento dos presentes, há uma compreensão geral de que não devemos nos dividir entre acampados e moradores de rua, até por que isso seria impossível. Eles estão lá, eles somos nós, são integrantes do GT Segurança, do GT Alimentação, participam das rodas, das atividades culturais, das dinâmicas de teatro, de corpo, do GT Queer. E a baderna é também provocada por quem não é morador de rua.

Essa relação fluida, sem identidade possível, é já a Ocupa. Complemento: enquanto não tivermos identidade, enquanto a organização for sempre um devir, as dinâmicas se alterarem cotidianamente, as experimentações forem a palavra de (des)ordem, o espaço estiver sempre se redesenhando, não seremos localizados e, portanto, o fluxo continuará, e nisso reside a nossa única segurança possível: a de convivermos sem ela, de assumirmos que todos os conflitos são os nossos conflitos e é nossa a responsabilidade para lidar com eles.

Ocupemos a realidade das ruas, essa que nos antecede e que seguirá, se não ocuparmos! Ocupem, amigos e amigas.



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