Construindo uma instituição do Comum / Entrevista com Gigi Roggero da Edu-Factory


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Construindo uma Instituição do Comum – Entrevista (Traduzido por Bruno Stehling, da OcupaRio / OcupaTeoria)

Original em inglês no site http://prekariatet.se/text/building-institution-common/


Entrevista com Gigi Roggero da Edu-factory

“O que antes era a fábrica, hoje é a universidade”, afirma o coletivo internacional Edu-factory, que começou como uma lista de emails de 500 estudantes, ativistas e pesquisadores de todo o mundo. Eles argumentam que no capitalismo cognitivo de hoje, experimentamos a transformação da organização vertical do conhecimento em captura e expropriação de conhecimento comum após sua produção. Esta apropriação e exploração dos conhecimentos produzidos em comum abre uma possibilidade de autonomia da produção de conhecimento. O fato de que hoje o conhecimento é produzido no comum também torna possível nos re-apropriarmos dele. A tentativa do Edu-Factory de criar uma universidade autônoma global é uma forma de recuperar tal conhecimento comum. O Edu-Factory escreve: “prática teórica é sempre prática política, e prática política não é apenas prática teórica”. Eles alegam que não há produção de conhecimento que não seja política. A teoria é sempre um campo de luta e em tempos de “capitalismo cognitivo”, talvez um dos mais importantes. Nós nos encontramos com Gigi Roggero, um dos fundadores do coletivo Edu-factory, na conferência “Trabalho da Multidão” (Labour of the Multitude), em Varsóvia, para falar sobre o Edu-Factory, as lutas recentes da universidade e dos trabalhadores precários, bem como as idéias sobre educação autônoma.


1 – Quais foram as principais idéias por trás do projeto Edu-factory quando você começou em 2006-07?



A idéia principal foi examinar as transformações da universidade e os conflitos dentro da produção do conhecimento. Nós imediatamente assumimos um ponto de vista transnacional, já que hoje, a prática política e teórica não pode ser limitada ao Estado-nação. Quando eu falo da prática teórica, estou falando sobre algo que está imediatamente dentro das lutas, dos movimentos e da prática política.
2- Então, em termos práticos, tudo começou como uma lista de e-mails, certo?


Começou como uma lista de discussão, mas com algumas inovações. Nós achávamos que as antigas listas de discussão da década de 1990 tinham alguns problemas. Nossa experiência era de que elas geralmente começavam com grande quantidade de e-mails seguidos de uma discussão dispersa, onde era difícil se concentrar em um único tópico. Estas listas produziam uma grande quantidade de caos, mas não um caos produtivo de fato, e depois de algum tempo elas costumavam entrar em declínio. Então, quando começamos a nossa lista no início de 2007, introduzimos algumas regras. A primeira foi um limite temporal. Isto significa que começamos a primeira rodada de discussões em janeiro e terminamos em março. Por três meses a lista foi aberta e depois fechada. A segunda inovação foi a organização da discussão. Fizemos um cronograma de intervenções, textos escritos por pessoas diferentes no coletivo. Depois que eram publicados na lista, todos os debates e postagens seguintes se concentravam em torno deles por cerca de uma semana. Isso funcionou muito bem. Tivemos duas rodadas de discussões que estão parcialmente compiladas em um livro que será lançado em italiano, inglês, espanhol e polonês. Os dois tópicos dessa discussão durante a primeira rodada foram as transformações da universidade e conflitos na produção do conhecimento, e a segunda fase foi orientada em torno do mercado global de educação e a construção da instituição do comum.

3- Vocês realizavam outras coisas fora da lista de e-mail?


O Edu-factory é composto de militantes, ativistas, estudantes, pesquisadores – trabalhadores e precários na universidade que são imediatamente militantes. Estamos todos envolvidos em lutas diferentes. O que discutimos foi interno à nossa atividade política concreta – uma atividade que não era só com base na web, mas antes de tudo em espaços concretos. Também organizamos conferências, reuniões e oficinas diversas em Amsterdã, Roma, Austrália, Reino Unido e nos Estados Unidos. O Edu-factory foi um dos organizadores da reunião de Paris sobre as Lutas da Universidade contra a austeridade, ocorrida em fevereiro passado.

4 – Você descreve a produção de conhecimento hoje como um campo de batalha central. Você poderia desenvolver a sua idéia de produção de conhecimento e explicar porque isso é tão central em suas análises?



Algo sobre o qual temos discutido e escrito bastante é o capitalismo cognitivo, e que o trabalho está cada vez mais centrado em torno das capacidades cognitivas (mentais e linguísticas). Com isto queremos dizer que o conhecimento é fundamental para as novas formas de trabalho e acumulação capitalista. Não é central apenas na produção social, mas também como um meio de produção. Quando falamos de trabalho cognitivo, claro que não estamos dizendo que o trabalho manual está desaparecendo, mas que o processo que torna cognitivo o trabalho é um paradigma central que afeta a composição de classe inteira. Em outras palavras, hoje você tem um processo que torna cognitivo o trabalho também para o tradicional trabalhador de fábrica. Não se pode compreender o funcionamento da fábrica se não se compreende o processo que torna cognitivo o trabalho.

5 – Você também fala sobre um movimento em que o capital não organiza mais a produção de conhecimento a partir de cima, mas é forçado a capturá-lo após a sua produção. Você pode falar um pouco sobre essa transformação?


Durante o capitalismo industrial, a cooperação social era organizada principalmente de cima para baixo. Você tem a fábrica e os trabalhadores que são postos na fábrica para produzir cooperação. A fim de montar um carro a partir de peças diferentes, tem que haver cooperação entre os trabalhadores, mas esta cooperação é principalmente organizada por empresários capitalistas. Agora, se você olhar para formas de produção de valor de hoje, há uma cooperação social que é cada vez menos organizada pelo capital. Ao invés disso, cada vez mais o capital precisa organizar uma captura a partir da base. A figura corporativa do caçador de tendências é exemplar. Nos anos vinte, Henry Ford disse: “compre o carro que você quiser, o importante é que ele seja um Ford T preto”, resumindo o sonho capitalista de induzir necessidades a partir de cima. O caçador de tendências, por outro lado, age diretamente a partir de baixo, tentando capturar e traduzir expressões de subjetividade para a linguagem do valor. O Capital chega depois da cooperação social ser pré-formada. É só pensar na Internet onde o Google é o modelo principal de empresa. Este modelo não organiza a cooperação verticalmente, mas em vez disso tenta continuamente agregar valor para a cooperação social que existe independentemente dele. Eu também tenho que dizer que quando falamos do tornar-se cognitivo do capitalismo, como eu disse antes, isso não significa que não há mais o capitalismo industrial clássico, mas isso significa também que ele passa por mudanças. Assim como capitalismo industrial não significava que as atividades artesanais foram desaparecendo, mas sim que o novo paradigma de acumulação capitalista passava a ser a fábrica e a organização industrial.

6 – Como você pode ver isso como uma captura, quando o capitalismo já produz, pelo menos em parte, a cultura e a linguagem da qual este conhecimento surge? Ou em outras palavras, como você pode dizer que é uma captura quando a cultura que produz este conhecimento desde o início é uma cultura capitalista?


Em primeiro lugar, quando eu falo de cooperação social e captura eu não quero dizer que a cooperação social é externa ao capital.Na verdade, eu acho que não há um “fora”. Capital, em uma análise marxista clássica, é uma relação social e não algo externo. Cooperação social está dentro da relação capital – social, mas ao mesmo tempo, há um processo de “tornar-se autônomo” da cooperação social. Em relação à linguagem, eu acho que é um bom exemplo da forma como a captura está funcionando. Porque quando eu falo de captura eu não falo de uma idéia puramente parasitária de capital, mas de uma transformação na sua forma de organização. Isto é, a organização capitalista é cada vez menos relacionada à organização da cooperação social, e cada vez mais à organização da captura. Porque, naturalmente, a captura tem que ser organizada. E sobre a linguagem, eu acho que esta é uma questão muito boa, pois é também uma questão que a luta tem que considerar. Como são possíveis as formas clássicas de comunicação dentro das lutas hoje? Como podem linguagens diferentes criar uma composição comum? O Capital traduz diferentes linguagens para a homogeneidade da linguagem do valor. Eu acho que o problema dentro das lutas, hoje, não é reduzir a heterogeneidade à homogeneidade, mas traduzir a heterogeneidade em uma composição comum. Existem alguns estudiosos interessantes sobre a questão da tradução, um estudioso japonês chamado Naoki Sakai, que desenvolveu a distinção entre as traduções homolingual e heterolingual, por exemplo. Tradução Homolingual é uma homogeneização das diferenças lingüísticas. É a forma através da qual a captura capitalista funciona. Há uma produção de diferenças dentro do Capital, mas estas diferenças têm que ser traduzidas para a homogeneidade da linguagem do valor. A tradução heterolingual é uma forma de criar uma linguagem comum, sem essa redução à homogeneidade. Vamos dar um exemplo, o encontro de dois imigrantes de diferentes idiomas em um país estrangeiro: eles têm que falar em uma língua nova, diferente de suas línguas maternas e do idioma do país em que se encontram. Isso quer dizer, eles têm que produzir uma nova língua comum, que não existia antes. Acho que o problema das lutas é o problema da tradução heterolingual, isto é, a tradução de heterogeneidade em uma composição comum. O comum não é a homogeneidade, mas é algo baseado em multiplicidade e diferenças.

7 – Em seus textos você menciona que os teóricos neoliberais de hoje usam e promovem a idéia de “rede” (network) como forma de organização, e você dá alguns exemplos. Quão diferente é a rede da Edu-Factory das redes descritas pelos estudiosos neoliberais?


Esses estudiosos neoliberais que citei – por exemplo, Yochai Benkler, que escreveu um livro chamado The Wealth of Networks – argumentam que o modelo clássico da Microsoft baseado na propriedade intelectual não funciona porque ele bloqueia a cooperação social e o poder de inovação produtiva. As novas formas de empresa, o Google por exemplo, têm que enfrentar o problema do que chamamos de captura da produção comum. Assim, nosso problema é, digamos, uma idéia fraca da rede. Isto é, que a rede é imediatamente a realização de uma nova forma de produção horizontal. Mas essa idéia de produção horizontal é exatamente no que a captura pelo capital é baseada hoje. Em outras palavras, a horizontalidade não é um ponto de partida, mas é o que está em jogo na cooperação autônoma. O nosso problema da rede é como construir uma idéia forte da rede. No Edu-factory, a partir das diferenças dentro das lutas, tentamos colocar estas questões: como é possível construir uma rede e uma nova forma de organização transnacional para além de um sistema representativo, e como é possível traduzir as diferenças em um espaço político comum? Nós não enfrentamos isso só em nível teórico, mas nos exemplos que eu mencionei antes (a organização da reunião de Paris, a reunião que estamos preparando para os movimentos da América do Norte, um encontro na Índia, o processo de networking e organização entre a Europa e a Tunísia), onde não há apenas processos envolvendo o Edu-Factory, mas várias outras redes e organizações. Estes são exemplos de como exatamente nós tentamos construir uma ideia forte de rede e da rede como uma forma de organização.

8 – Eu li parte do arquivo de e-mails que vocês tem online, e houve uma discussão no início de 2007 sobre o uso global do idioma inglês e como a linguagem acadêmica poderia ser potencialmente excludente. Eu gostaria de saber como vocês pensam sobre isso hoje, especialmente dentro de suas discussões e textos coletivos.


De uma forma muito simples, eu acho que nós temos que evitar um duplo risco. Por um lado, temos que evitar o risco de homogeneização, como mencionei antes, tradução homolingual de línguas diferentes, mas por outro lado, acho que também temos que evitar o risco das identidades de idiomas. O inglês foi imposto como um padrão em um processo histórico. Como é possível reverter e quebrar esse padrão? Acho que temos que agir dentro e contra ele. Usamos o inglês exatamente para superá-lo e para criar um espaço comum em que possamos lutar contra essa homogeneização. E também nos envolvemos em outras situações (a exemplo da reunião em Tunis em setembro-outubro passado) onde as principais línguas eram árabe e francês. O problema é pensar as lutas contra o capitalismo global como uma exaltação do local, porque a identidade do local é apenas uma das maneiras em que o Capital global funciona.

9 – Você fala sobre instituições autônomas, mas a maioria das pessoas envolvidas na Edu-factory não são também professores ou estudantes em universidades e, em certo sentido, dependente delas?


A idéia foi imediatamente concentrar-se na universidade como um espaço de luta, mas ao mesmo tempo assumindo que a produção de conhecimento está amplamente difusa no social. Não há um ‘fora’ da produção de conhecimento e não há um ‘fora’ da universidade. Nós interpretamos as universidades como aparelhos de captura e o problema é como romper essa captura e construir uma instituição do comum. Como reapropriar-se coletivamente da universidade: enfrentamos este problema de dentro.

10 – Nos últimos anos, vimos uma tendência de diferentes formas de iniciativas de educação alternativa. Mas como podemos diferenciar uma educação autônoma, enquanto formas de luta e contrapoder, de lugares onde as pessoas simplesmente estão usando umas às outras para obter e produzir conhecimento, a fim de se tornarem melhores concorrentes em um mercado de trabalho cognitivo?


O risco da educação autônoma e da educação autodidata (self-education) é de elas serem imaginadas como “ilhas felizes”, uma situação onde há as “instituições oficiais” e as “instituições alternativas”. Temos que quebrar essa dialética entre “alternativa” e “oficial”. Temos que interpretar o objetivo de instituições autônomas como o acesso ao conhecimento para todos e a cooperação autônoma de conhecimento vivo. Se estas experiências se limitarem a criar espaços comunitários, elas são ineficazes. O problema é como imaginar a educação autônoma como instituições do comum. Isso significa uma re-apropriação da riqueza social que nós produzimos em comum, e a destruição dos aparelhos de captura.

11 – Também parece haver um renovado interesse na auto-organização dentro do movimento estudantil e dos trabalhadores precários.


Claro, essas experiências apontam para um sentimento e um desejo pelo comum e por ir além da dialética entre o público e o privado. Mas eu tenho que dizer que, de um ponto de vista estratégico, o problema não é o espaço utópico ou o espaço comunitário, mas a construção do comum. Com tudo isso, podemos dizer que não temos nada a defender. O objetivo das lutas contemporâneas não deve ser o de defender a universidade pública, porque público e privado são complementares no processo de privatização, mas sim, essas lutas devem estar imediatamente situadas na prática constituinte do comum.

12 – Como você acha que essas idéias de instituições autônomas de hoje se relacionam com as críticas educacionais e da contracultura da década de 1960? Hoje parece haver um interesse renovado na crítica contracultural e educacional da época.


Eu acho mais ou menos o que eu disse antes, que essas idéias são importantes, mas às vezes há uma tendência para criar espaços marginais. A instituição do comum não é, de forma alguma, um espaço marginal da crítica alternativa, mas sua meta é a construção de novas relações sociais. Por exemplo, na Itália em 68, nós tínhamos as chamadas “anti-aulas”. Mas na década de 1980 e 90, esta prática de anti-aulas começaram a dizer que existem programas oficiais e existem as aulas onde você pode aprender o que é excluído do programa oficial. Eu acho que essa idéia não funciona porque há um grande risco de marginalização e formação de guetos. Em outras palavras, corre-se o risco de se reduzir a uma demanda de cidadania dentro da academia existente. Na verdade, eu não acho que a universidade contemporânea exclui: na universidade de hoje você pode falar de quase tudo o que você quiser, porque a própria universidade é uma máquina de despolitização. Por exemplo, na universidade anglo-saxã há uma moda crescente em torno de Deleuze, Althusser, e a chamada “teoria italiana”, mas de uma forma na qual isso é desconectado de suas raízes políticas. Eu acho que sem as raízes políticas, corre-se o risco de se falar apenas de categorias abstratas privadas de composições materiais. Os conceitos de Marx ou do Operaismo não são categorias abstratas, de forma alguma, mas ferramentas políticas. Se você não entende o conceito como uma ferramenta política, você não pode entender o conceito em si.

Para ler mais sobre o Edu-Factory visite: www.edu-factory.org



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