Archive for the ‘Edição 17’ Category


Kairós junino (Bruno Cava)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

AE06

Quantas pessoas têm a chance de experimentar um momento histórico, enquanto ele ocorre? Quantas não passam as vidas inteiras, ansiando por tempos de agitação, sem a chance de vivenciar um dia sequer de uma abertura para o porvir? E ficam melancólicas, inautênticas? Ficam suspirando por outras épocas, de onde seus heróis mortos falam num tom inacessível de aventura e terror, quando quase se pode sentir o calor das assembleias, a espreita das batalhas, amores trágicos e perseguições imoderadas?

Hoje, não temos razão para melancolia. Se existe uma definição de momento histórico, este é um deles. A perplexidade faz parte, porque estamos no meio da fumaça. Caminhamos sobre o terreno da incerteza radical, por onde erram nossos humores, na oscilação entre entusiasmo e decepção absolutos.

O fracasso da velha esquerda em pautar e conduzir os protestos não precisa necessariamente significar que os protestos não sejam de esquerda, como alguns sentenciaram horrorizados. Talvez signifique que a velha esquerda não seja mais esquerda. Não mais. Talvez signifique, aliás, que seja a hora de a velha esquerda reaprender a ser esquerda. E antes o levante qualificar a esquerda, do que esta a qualificá-lo. Ser esquerda, aliás, não é isso? Requalificar os partidos, os sindicatos, os movimentos sociais, o “terceiro setor” altermundista e todos quantos, a partir do movimento real que põe tudo a mover-se?

Triste mesmo é quem vive um momento histórico e já torce para que passe logo, para que tudo volte ao status quo ante, de volta a suas reuniões obscuras e marchinhas anódinas de 50 ou 100 cupinchas, balançando as mesmas bandeiras. Também sucede aí uma zona de conforto, uma sensação bovina de segurança em não precisar se relacionar com o outro radical — com o outro do mundo que continuou se transformando, apesar de nossas ideologias e convicções de ferro. O esquerdismo nunca foi tão esquerdista. Como pessoas paralisadas de medo diante da cinza vulcânica, prestes a virar estátua fúnebre.

Enquanto isso, a grande imprensa e setores da direita, mais espertos e muito bem organizados neste país, não cessarão de desqualificar o sentido político das manifestações. Trabalham incansavelmente, na imagem e no discurso, todas as suas contradições e ambiguidades, tirando proveito do que puderem. Só reconhecem as pautas que lhes interessam diretamente: o resto será ingenuidade ou crime. Fora dessas pautas, não deixarão de promover o receituário da criminalização da revolta e mobilização popular, no caso extremo com o discurso do terrorismo, em mais uma ditadura comissária, agora sob o cajado supremo da FIFA. Apelarão aos bordões mais batidos, às invocações morais mais mecânicas. Tentarão frear o ímpeto constituinte, sabotar as redes de organização, cooptá-las, desmobilizá-las pela intimidação, a culpa e o cansaço, para que o medo retorne ao “lado certo”. Tudo isso já sabemos, e deveríamos estar vacinados.

Passado o justo entusiasmo, é preciso reorganizar o pensamento. Sem engessar, permitir-se porém uma avaliação mais ou menos lúcida de apoios em que possamos precariamente nos segurar. O fato é que tudo mudou no junho quente. Quem acha que vai passar incólume está enganado: nada será como antes. Ainda que irresolvidos, os próprios problemas mudaram. Até o poder constituído, tão burocrático e amarrado de legalismos, acordou no Brasil de junho, apressando-se em esboçar concessões e oferendas, a fim de amortecer o impulso constituinte. Porque este, mais do que em assembleias ad hoc, já está solto. Subsiste em estado bruto, na confluência de insatisfações muito concretas, de demandas muito concretas, de uma percepção precisa a respeito da posição reservada à maioria da população no novo Brasil. O futuro do Brasil do futuro está mal organizado e distribuído, do ponto de vista dessa maioria que participa e apoia os tumultos. É essa maioria, — deliciosamente monstruosa, nada silenciosa, maioria aliás que ruge, — é ela quem porta em si mesma e por si mesma a força de transformação.

A Copa deste ano vai chegado ao fim, e pode ser que as grandes manifestações de rua tenham atingido um ponto crítico. Nem tanto um ponto de esgotamento, mas de transmissão. Por um lado, o poder constituinte por assim dizer “a quente” exerce o papel de fazer o medo mudar de lado. Passá-lo para o lado de lá, conferindo cá a sensação de que é possível, sim, que nós podemos. Por outro lado, em paralelo aos milhões se manifestando nas ruas, acontece também um trabalho mais “a frio” (digamos, menos fervente), que multiplica encontros, instâncias, fóruns, redes e alianças. Esse espessamento de organização também é poder constituinte, porque confere duração e qualifica a potência acumulada.

As manifestações não são espontâneas. Espontaneidade seria sair do trabalho ou da escola para assistir à TV, tomar um banho, de repente encontrar os amigos. Sair às ruas para expressar-se em meio a uma multidão de gente, qualquer que seja a roupagem simbólica, já não pode ser um ato de espontaneidade irrefletida. Para uma indignação mecanizada bastaria aderir às caretas dos âncoras do telejornal, ou emular uma impostação moral qualquer do editorial do jornalão, sobre qualquer tema que seja. Espontaneamente, ao ter contato com essas pulsões da grande imprensa, somos poupados de nos indignar, como quando assistimos a comédias e a risada de fundo efetivamente ri por nós. A indignação que chega às ruas no meio dos outros, diante de bloqueios policiais, não é risada enlatada. Num evento desses, o corpo desembota, recupera o viço. Aí está, também, um manifesto político, à revelia das bandeiras ou antibandeiras que sejam ostentadas. A subjetividade já está em processo.

Reduzir as expressões das ruas à pura negatividade, como um caos niilista, perde de vista o essencial. É exatamente isso que pretende que acreditemos quem não quer que nada mude, e não por acaso se infiltre nos movimentos para encobrir as suas tendências construtivas, exacerbando a linha caótica de interpretação. A negatividade a que temos assistido só acontece, aliás, porque assentada sobre uma positividade maior. Desejamos essa positividade, daí não aceitarmos o que nos oferecem, numa recusa por vezes tumultuada e assustadora. A dignidade é primeira. Eu me revolto contra o sistema de transportes, porque sei que é possível experimentar a mobilidade urbana de outra maneira, e que seja possível construir politicamente um transporte menos superlotado e lento, menos humilhante, e que seja potencialmente gratuito.

Se me indigna a gestão policial dos territórios dos pobres, é porque conheço outras formas de auto-organização, formas políticas e culturais muito mais cooperativas, alegres e democráticas. Se estou sonhando alto com essas formas, é sonho porque quero generalizá-las, mas o sentimento que existam e me sejam próprias já está aqui. Já as vivencio como reais e sei que muitos o fazem. É um “possível atual”, como diria Deleuze, que preenche o presente de sentido.

Se me ofende o modo como realizam os megaeventos, é porque vejo como estão na base de um projeto de cidade diametralmente oposto à vida na cidade (que esse mesmo projeto explora). Tenta frustrar uma cidade viva onde me vejo mais livre e produtivo: querem me renegar dessa urbanidade abundante.

O trabalho do positivo, para as revoltas, está em entrelaçar os pontos dessa vida mais rica de sentidos e dignidades, num projeto encarnado de cidade, trabalho e cidadania.

Nesse sentido, não são mesmo manifestações voluntaristas. Estão muito bem calcadas num projeto em formulação multitudinária, ainda que seja hoje um projeto caleidoscópico e bastante confuso. Como não seria, se a própria ideia de organização política mudou nos últimos tempos? A realidade está solta, sem gentileza pros esquemas. Não temos as ferramentas para enxergar e tatear isso. Estão sendo criadas, no movimento mesmo, embaralhando as cartas com que nos habituamos a jogar. Criemos!, como solicita o meu amigo Luís Alencar. Mais que petição de humildade, é a percepção impositiva que, num momento assim, tudo tem de ser construído.




Ser de esquerda é ter a coragem de mergulhar na multidão (Giuseppe Cocco)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

Passe-Livre-cidade

Qualquer que seja seu desfecho, o levante da multidão é um terremoto que faz ruir, ao mesmo tempo, os prédios governamentais da esquerda que está no poder e os palácios decadentes das ideologias. Fica a pergunta: a esquerda é reformável? Como militar pela esquerda diante do fato que suas categorias (seja ela “a classe operária” ou a “Nova Classe Média”) e suas formas (as bandeiras, os partidos, os sindicatos, as ONGs patrocinadas) são ultrapassadas?

Depois das agressões às bandeiras de partidos, no último dia 20 de junho, toda a esquerda entrou em uma postura reativa: “se as manifestações não gostam de nossas bandeiras, elas são de direita ou são massa manipulada pela direita”.

A extrema esquerda se junta aos oportunistas encastelados nos governos. Aqueles que tinham esquecido as bandeiras e as usavam apenas para limpar as mãos sujas nas coalizões espúrias, passaram a fazer do uso delas uma questão de “honra”.

Já os que faziam oposição pela esquerda não conseguem ver que o problema das bandeiras é exatamente o… problema das bandeiras: a luta não é por ideais (as tais bandeiras). A  mobilização deve ser, agora, multitudinária, sua polifonia, espontânea e auto-organizada, bem como a ausência de linha, organicidade e liderança; estas, são as maiores bandeiras que um militante pode carregar! Insistir em impor a “Luta das Bandeiras” a um movimento que tem a luta como bandeira foi um erro político até aquele recente 20 de junho. Hoje, pode ser  uma grave irresponsabilidade: deixar esse espaço aberto justamente àquela direta, que avança usando apenas o verde e o amarelo.

A questão é inventar uma nova antropofagia política, um novo “pau-Brasil”, como Oswald de Andrade soube fazer nos anos 1920. A poeira dos escombros e a fumaça dos gases lacrimogênio ainda não baixou, mas já dá para ver um novo horizonte. Apesar dos perigos, este é o horizonte do possível. E ser de esquerda é sobretudo ter coragem, política e até ontológica, de mergulhar no possível.




Belo Horizonte e os ônibus sem catraca (André Veloso)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

A discrepância entre o custo do sistema e o quanto, como e quando se cobra por ele evidenciam que as decisões devem estar no campo político, não técnico. É uma questão de escolha: se nossa sociedade decidir que sim, o transporte é um direito e deve estar disponível a todos, sem distinção ou tarifa, então ela achará meios para tal. – Movimento Passe Livre, São Paulo. Folha de São Paulo – 12 de Junho de 2013.

Nos estudos de economia mineira, costuma-se utilizar a tese de que o “empresariado mineiro seria mais atrasado e mais débil do que o empresariado nacional” para se justificar o fato do famoso “atraso econômico de Minas em relação a São Paulo”.


Nada mais longe da verdade.


Os levantes que vemos agora em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre são uma reação imediata aos aumentos de passagem que ocorreram nos últimos dias (ou semanas) nessas cidades. É claro, não são levantes contra centavos, são pelo direito à mobilidade, ao ir e vir. E questionam profundamente a atual concepção de transporte (coletivo, público e privado), principalmente quem, como e quando esse transporte é financiado.
Mas, todos concordam, os levantes foram iniciados pelo aumento da passagem. Pelo fato de – de um dia para o outro – termos que pagar mais 20 centavos por um transporte truculento, superlotado, congestionado, que nos leva para um lugar que não queremos para fazer um trabalho no qual, em geral, não nos sentimos realizados.
Pois bem, novamente: nada mais longe da verdade afirmar que a elite mineira é inepta. A tradicional família mineira se traduz em uma elite extremamente astuta e perniciosa, agindo da forma mais silenciosa possível, como um mineiro comendo pelas beiradas.


Segundo o contrato de concessão dos serviços de transportes público em BH, licitado em 2008, a passagem de ônibus é reajustada de acordo com uma equação paramétrica que leva em conta os custos do transporte e os reajusta de acordo com a inflação registrada pelo IBGE e pela FGV (a equação está no fim deste texto, para quem quiser ver). Com um detalhe: pelo contrato, esse reajuste é publicado no dia 28 de dezembro e EFETUADO, TODOS OS ANOS, NO DIA 29 DE DEZEMBRO.


É quase desnecessário dizer que nesta época do ano a grande maioria da população belo-horizontina se encontra fora da cidade: além de ser fim de ano, grande parte de nós tem origem no interior do estado (em 1960, 70% das pessoas que moravam em BH não haviam nascido aqui).


A equação paramétrica e a data em que é feito o reajuste são dois elementos que fazem parte da construção do mesmo discurso feito pelas autoridades públicas e empresários para a população. Busca-se passar a impressão de que o reajuste faz parte do sistema, que ele é uma necessidade técnica para que o sistema permaneça funcionando, e que se ele não for cumprido o sistema pode entrar em colapso, os empresários não investirão mais, e a cidade parará.


Em outras palavras: o véu técnico encobre o caráter necessariamente político da tarifa.


Neste último sábado (08 de junho), o presidente da BHTRANS, Ramon Victor César, em fala realizada no X Congresso da Associação dos Usuários de Transporte Coletivo da Grande BH, deu a entender que a tarifa pode ser reajustada para cima, ainda neste ano. Além do reajuste anual, há uma revisão a cada 4 anos da tarifa, para averiguar se os reajustes foram “justos”. A grande multinacional Ernst & Young foi contratada para realizar essa revisão e, segundo esta, um dos fatores de desequilíbrio da atual tarifa é que os salários dos trabalhadores das empresas tiveram um reajuste maior do que o índice que mede o preço da mão de obra na dita equação. Ou seja, os empresários perderam parte de seu “diminuto” lucro, que, é claro, deve ser ressarcido à custa do usuário.
Lúcio Gregori, idealizador do projeto Tarifa Zero durante o governo de Luiza Erundina na cidade de São Paulo (1989-1993), costuma afirmar que a tarifa do transporte público funciona como um fetiche, como algo que encobre a verdadeira natureza do transporte público. O empresariado a vê como a única forma de remuneração de seu serviço, o Governo a vê como um instrumento de barganha política e a população costuma associá-la à qualidade do serviço, não conseguindo enxergar outra possibilidade que não seja a de pagar pelo ônibus no momento da sua utilização.


Apesar disso, o absurdo do sistema tarifário é evidente. Diferentemente de outros serviços públicos como saúde, educação e segurança pública, que são financiados por toda a população de maneira indireta, o transporte público é completamente financiado por quem se utiliza dele e no momento da utilização. A analogia é simples: imagine uma catraca na entrada de uma sala de aula, cobrando pelo custo de manutenção da sala e pelo salário do professor. Só quem pudesse pagar poderia ter aula. Ou ainda, uma catraca na entrada da ambulância e/ou dos leitos hospitalares. Por fim, imagine uma caixinha para o policial, toda vez que você chegasse em casa sem ter sido assaltado.


Essa lógica perversa faz com que os mais pobres, que são aqueles que não podem comprar uma moto ou um carro, financiem a mobilidade urbana dos mais ricos. E isso se torna um círculo vicioso. Quem puder escapar do transporte público, o fará rapidamente. Com mais motos e carros nas ruas, mais congestionadas ficam nossas vias e mais lento, ineficiente e custoso será o ônibus, que, portanto, irá aumentar sua tarifa para poder se financiar, levando mais pessoas a optarem pelo transporte individual.


Assim, como tem pautado o Movimento Passe Livre, devemos ir além da luta pela revogação de aumentos ou redução da tarifa: devemos questionar a tarifa em si. A primeira coisa a ser revista deve ser o contrato entre as empresas de ônibus e a prefeitura de BH, no caso municipal, e entre as empresas de ônibus e o estado, no caso da Região Metropolitana. Esse contrato garante o monopólio da exploraçãodos serviços para essas empresas, que se constituem como verdadeiras máfias. O de Belo Horizonte foi feito em 2008 e dura até 2028, para 4 consórcios. O da Região Metropolitana é ainda pior: são 7 consórcios com exploração garantida de 2008 a 2038!


A possibilidade concreta do ônibus sem catraca em Belo Horizonte


É óbvio que o transporte público custa dinheiro. Para se possibilitar a revogação da tarifa nos ônibus de BH, simultaneamente a um aumento e melhoria de sua frota, propõem-se quatro fontes básicas de recursos, que constituiriam um fundo municipal de mobilidade urbana.


A primeira já está aí, são recursos que a PBH já possui, mas são mal direcionados.


O orçamento de 2013 da Prefeitura de Belo Horizonte prevê um gasto de cerca de 230 milhões de reais para o programa Corta-Caminho (VIURBS) da BHTRANS. Esse programa, de maneira geral, prevê uma série de intervenções viárias na cidade para desconstruir a lógica centro-radial de trânsito. Ou seja, desconstruir a necessidade de ter de passar pelo centro para chegar a qualquer lugar da cidade. Apesar de ser necessário, a prioridade dada ao programa é absurda, visto que este atende principalmente aos interesses dos automóveis privados. É por demais óbvio que a ampliação da malha viária, abertura de novas ruas e construção de viadutos não resolveu, não está resolvendo e não irá resolver o problema de mobilidade de BH ou de qualquer outra metrópole. A frota de carros belo-horizontina cresce 7% ao ano, e é simplesmente impossível comportar esse crescimento com uma ampliação da malha viária que chegue perto desse ritmo, sob pena de transformar a cidade em uma grande e única massa de asfalto.


Para se ter uma ideia das prioridades da PBH, o meio-passe estudantil recebeu apenas 4 milhões de reais no orçamento 2013, menos de 2% dos recursos destinados ao VIURBS. Ou seja, trata-se de uma questão de prioridades e controle do orçamento público, o que é claramente político.


A segunda fonte de recursos também já está aí. São os recursos em vale-transporte pagos pelas empresas a seus funcionários.


Com a instituição bilhetagem eletrônica (cartão BHBUS), esses recursos passaram a ser transferidos antecipadamente para as empresas de ônibus. Além disso, diferentemente dos antigos vales-transporte de papel da década de 1990, é quase impossível para o trabalhador utilizar o cartão BHBUS como “moeda”, vendendo sua passagem ou trocando por outros serviços. Assim, o que se propõe é simples: em vez de pagar às empresas de ônibus, na forma do cartão, o dinheiro da passagem de seus funcionários, as empresas com sede em BH pagariam esse valor ao fundo municipal de mobilidade urbana. Nenhum custo a mais para ninguém.


A terceira fonte de recursos provém diretamente da revisão do contrato de concessão das empresas de ônibus. Apesar de nós, sociedade civil, não termos acesso à planilha de custos das empresas, salta aos olhos que estas auferem lucros altos, mais altos que a média do capital em outros setores e com a vantagem de terem um monopólio. Sem entrar na discussão da municipalização ou não do transporte (que, é claro, é um debate que precisa ser feito), a mera mudança da forma de contratação do serviço (estabelecendo, por exemplo, valores anuais a serem pagos às empresas) já tornaria o serviço bem mais eficiente e barato.


Por fim, a quarta fonte de recursos provém de um IPTU progressivo, que estabeleceria uma equidade de fato no financiamento do transporte. Paga quem se beneficia do transporte público, e não quem utiliza. E, assim, paga mais quem pode pagar mais, paga menos quem só pode pagar menos, e não paga nada quem não pode pagar. Nesse sentido, bancos e o grande comércio e indústria poderiam entrar com a maior parte dos recursos.


A verdadeira mudança da Tarifa Zero


O que mudaria em Belo Horizonte se o ônibus fosse sem catraca, se fosse completamente gratuito?
A resposta: simplesmente tudo. Toda a lógica de se estar e transitar na cidade mudaria. Grande parte da população, que simplesmente não se conhece (e não conhece a cidade), se encontraria, teria acesso aos equipamentos culturais, ao centro da cidade, a outros e diversos rincões da cidade. Se locomover não seria considerado um suplício e não estaria ligado exclusivamente à lógica do trabalho.


Ter acesso a todos os locais da cidade, de maneira gratuita, mudaria a forma como nos apropriamos do espaço urbano, o modo como enxergamos e participamos de sua construção. Significaria, em última instância, uma nova dimensão de liberdade em nossa sociedade.


O acesso do povo à cidade tem se mostrado, muito mais do que o lucro, o verdadeiro medo de nossas elites governantes. E é essa a maior conquista que o Movimento Passe Livre nos deu: demonstrou que é possível e urgente sonhar e mudar esta cidade.




A multidão das ruas grita por educação. Mas o que esperamos da educação? (Marina Bueno)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

educacao_luta

Acompanhando os desdobramentos das manifestações no Rio, nas ruas, nas redes sociais, na mídia, em simples conversas com pessoas próximas, fui tomada por sentimentos conflitantes, que expressam bem, a meu ver, o clima geral que tomou conta do país nas últimas semanas. Entre convergências, dissidências e dúvidas que este momento vem produzindo, algo tem me incomodado mais: os discursos em torno da educação. Tomada pelos gritos e cartazes das ruas, a educação se fez presente mesmo quando a pauta aparecia como uma colcha de retalhos de desejos e vontades difusas.

Citando Emma Goldman, um cartaz presente nos protestos virou uma foto amplamente divulgada nas redes sociais: “o elemento mais violento da sociedade é a ignorância”. Junto a ela, discursos que afirmam que o não investimento em educação é algo proposital, uma vez que se pretende manter o povo (leia-se, o pobre) nessa tal ignorância. Isso faz com que políticos corruptos cheguem ao poder (e o país é o que é por estas escolhas mal feitas). Afirmando a necessidade de “mais educação”, tal análise atribui ao ensino escolar a possibilidade de superação dessa ignorância, de forma a criar condições para que todos aprendam a escolher seus governantes.

É necessário lembrar, no entanto, que os frutos que colhemos hoje foram brilhantemente semeados por pelo menos dois séculos de governantes letrados, diplomados, que passaram por instituições de excelência e que historicamente foram apoiados e escolhidos por outras cabeças pensantes como eles. Então convenhamos que não é possível atribuir ao pobre, ao cara sem estudo, a responsabilidade pela situação social atual do país (e nem mesmo aos governantes que não fazem parte dessa elite intelectualizada).

De fato, bom seria que a escola pudesse ser capaz de livrar todos os sujeitos de certa ignorância que se faz presente nas mais sutis formas de violência – a ignorância social, humana e politica – reproduzida quase que naturalmente por discursos baseados naquilo que nem se sabe bem como funciona. Discursos que se apoiam numa concepção que carrega um tom fundamentalmente moralista das relações – seja honesto, não fure fila, dê o lugar para um idoso no ônibus e assim você mudará o país – desconsiderando e por vezes apoiando essa estrutura social que produz individualismos, desigualdades e naturalizações de todas as ordens. Discursos vazios que exigem um determinando “ser” humano, sem a consideração de que alguns “humanos” vivem sem condições mínimas de humanidade.

Se a escola pudesse atender a esta expectativa, todos precisaríamos voltar a ela! Dentro e fora dos contornos da educação, a construção de outros padrões de relações é um processo do qual todos fazemos parte. E não falo de “cada um que faça a sua parte” numa concepção que reforça essa análise moral já tão difundida e naturalizada socialmente. Falo da construção de uma concepção humanizada, que refuta a ideia da naturalização da questão social, como se ela fosse inevitável, fruto do esforço maior de uns e menor de outros.

Ainda na era industrial Marx nos mostrou através de seus estudos que o trabalho nunca é recompensado na medida de seus esforços. O capitalismo financeiro mais tarde nos revelou que “quem mais ganha” nem sempre o faz trabalhando. No capitalismo industrial ou no capitalismo financeiro, sempre se tratou da expropriação pelos poucos da riqueza produzida pelos esforços de muitos. E as condições degradantes de vida da maior parte da população desse país também ensina – àqueles que conseguem minimamente perceber a realidade para além dos discursos cristalizados pelos preconceitos de todos os dias – que se o pobre não se esforçasse sequer estaria aqui pra contar história! O direito à vida na prática é uma luta diária por sobrevivência.

Aqui surge outra questão apontada pelo discurso pró-educação: a desqualificação de outras politicas que compõem o sistema de proteção social brasileiro, sobretudo a assistência social, tomada sempre enquanto um mero assistencialismo – apesar da transferência de renda ser uma das garantias da politica nacional de assistência social, que foi uma conquista histórica, fruto de um processo intenso de luta. Inversões de todas as ordens são postas a circular a respeito dessa política, sobretudo no que diz respeito ao bolsa família: fala-se de um valor que não é real (próximo ou até superior do que o salário mínimo); da produção de um imobilismo para o trabalho com afirmações que apoiam até mesmo as formas de trabalho escravo; da necessidade de uma porta de saída antes mesmo de se pensar nas possibilidades de entrada.

Quero abrir um parêntese para dizer que não se trata aqui de fazer uma oposição à ampliação dos investimentos na área da educação. Ao contrário, como profissional e militante da área acredito que investir na educação é um passo importante para uma mudança que se faz necessária. No entanto, é preciso que duas questões sejam consideradas.

A primeira delas é a necessidade de reconhecermos a indivisibilidade e interdependência dos direitos fundamentais como elementos constitutivos de um sistema de proteção e promoção social. O desrespeito a um deles aponta para violação de seu conjunto. Neste sentido, não cabe atribuirmos uma maior ou menor importância às diferentes áreas da política pública, uma vez que cabe à ela garantir condições dignas de vida à população, através de um conjunto de medidas relacionadas. Esta concepção está na base do entendimento de que a política de saúde, para dar um exemplo, não pode ser pensada de forma isolada, uma vez que é direta e indiretamente influenciada por outras condições que a ela se relacionam: trabalho, saneamento, habitação, etc.

A segunda questão que também se vincula a anterior, é que o reforço desse discurso messiânico que atribui à educação uma função salvacionista, além de se equivocar ao desqualificar a necessidade de outros mecanismos para além do ensino formal, não problematiza seus elementos mais estruturais: currículo conteudista; disciplinas que pouco se comunicam entre si; priorização de uma “inteligência prática” em detrimento do pensamento crítico; politica fechada em si, com pouca trajetória no campo da intersetorialidade; frágeis ou quase inexistentes mecanismos de participação direta; rotinas pautadas numa hierarquia autoritária e homogeneização de comportamentos.

A escola que temos (e não falo apenas da pública), é espelho da sociedade que temos: não possibilita a construção de novos padrões de relações sociais, materiais e politicas, ao contrário, reforça o estado presente das coisas. Em outros termos, investimentos financeiros na educação são mais do que necessários, mas sozinhos serão incapazes de promover a mudança que as mais de 100.000 pessoas que se manifestavam nas ruas do Rio imprimiram em seus gritos e bandeiras – seja em relação a escola ou ao que se espera dela!




Tudo como nunca! (Luís Carlos Alencar)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

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No Rio, 22 de Junho. O que se passa depois de dois dias do Levante Popular da Presidente Vargas? Alguns dias depois da rebelião popular da ALERJ? O silêncio que antecede novas expressões retumbantes de política! Dá para sentir no ar o cheiro excitante do inominável: a ambiência é a da possibilidade total!


As mobilizações são como um território condensado: tempo e espaço se intensificam nos arredores do trajeto. Tudo está eclodindo e se reinventando em menos de uma semana. Décadas de processos sociais estão sendo vivenciados em dias: conflitos contra as forças de repressão do estado, aprendizados durante a revolta, resistência que se organiza e se refaz, sobreposição de análises de conjuntura, riscos de vida e desejos destrutivos edificantes, embates com a extrema-direita, partidos ou não partidos, organização ou espontaneísmo, aliados ou inimigos, estratégias, princípios ou método, puxar manifestações só da esquerda ou disputar corações e mentes, fechar em poucas pautas ou potencializar a hidra, identidade ou fluxo, avançar ou recuar?


Na territorialização dos conflitos, passaram a estar presentes (e intensificadas) todas as assimetrias sociais e muitos dos seus personagens – a massa (a cheirosa e a fedida), o racismo e o antirracismo, o fascismo (do estado e da direita organizada) e o antifascismo (das esquerdas que se articulam). Como não haver conflitos? Espera-se fazer movimentação de massa com 2 milhões de pessoas de esquerdas? Se nem entre nós podemos considerar que historicamente houve paz… A nós anarquistas: não era por isso que esperávamos? A cotidianização da política? A possibilidade real de disputarmos ideias, experiências, agires políticos?


Quem disser que está fora disso, não se espante, simplesmente é a assunção da incapacidade de agir nos novos cenários. O programa de revolução foi à bancarrota. Algumas estruturas de organização tem mesmo que sucumbir, para se reinventarem, tem que fazer a autocrítica e possibilitar maior participação de seus membros, mudar radicalmente a sua dinâmica e a de seus processos deliberativos. Não é só a democracia burguesa, nem o estado que está em xeque: as nossas organizações também estão! Em última instância: nós mesmos não podemos ser os mesmos.


O território das mobilizações está se ampliando: para além das ruas, pelas redes virtuais (não mais como chamados, mas como disputa de sentidos, embates pelos significados de todos os processos), pelas reuniões, plenárias, assembleias populares…


Precisamos de mais. E para ampliar ainda mais esse território,
precisamos investir na criatividade, nossa principal arma. O momento é propício para invenções – do mundo, das pessoas e da ação! Temos que manter o fluxo se espalhando pela cidade, pelo país, para se tornar afluente do mundo.


O que determinará a força da correnteza é estarmos todos em curso. Manter a criação (que também opera pela destruição) para além de passeatas. Estas já em si deixaram de ser a modorrenta marcha dos mesmos, com os mesmos, para os mesmos e se afirmam como a ação direta e o protesto social como proposta democrática de participação.
Temos que avançar! É um terreno novo, que ninguém sabe ainda como manejar, portanto espaço de liberdade em disputa. Temos que explorar justamente isso: a disputa pela liberdade de existirem espaços livres.
Vamos criar novos eventos, mas também constituir novas possibilidades de manifestações mais perenes: assembleias no interior das manifestações, assembleias populares de bairros
como manifestação em si, teatros e perfomances de terrorismo poético, festividades de combate, ocupas virais, façamos o inusitado como enfrentamento e proposição.


CRIEMOS! (pero sin perder la revuelta)




O anjo exterminador: o princípio do fim ou um novo começo (Cunca Bocaiúva)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

anjo-exterminador

A banalidade do mal parece estar tentando tragar a emergência do novo na chave dos fenômenos extremos no Brasil. No século XX tivemos a era dos extremos plena de incertezas, no século XXI temos a era das incertezas plena de extremos. O final do filme o Anjo Exterminador sugeria um impasse tendendo ao apocalíptico, um final que não acaba. De todo modo no decifra ou devoro-te em curso o Dragão da Maldade e o Santo Guerreiro estão soltos, no Brasil de Euclydes e Glauber sempre se trava uma guerra do fim do mundo e Pindorama entra em transe.


As conjunturas ultrapassam e atropelam os sujeitos, quando novas e velhas forças se movem e questionam práticas, instituições e governos, mesmo sem saber para onde ir e o que propor. Quando se convocam os “Estados Gerais”, quando se sucedem e se entrelaçam as muitas reações e movimentações, quando se formam muitas as zonas de sombra e opacidade. Repentinamente as figuras por trás do palco emergem na cena. Os resíduos e os excessos dos modos de produção e das relações sociais abrem espaços sem que deixem de aparecer vários vazios, clarões e muita fumaça. Em horas como essas o fantasma autoritário e a imagem apocalíptica se mostram, quando cai a falsa imagem que recobria o deserto do real.


Na véspera dos eventos e jornadas de junho o ovo da serpente estava se abrindo com as forças retrógradas em temas de direitos humanos, sexuais e reprodutivos. A violência no campo e na disputa sócio-espacial retornava junto com o desejo de criminalização dos jovens. Mas o movimento juvenil contra os aumentos de tarifas impediu o nascimento prematuro da velha criatura. Uma pergunta se dá em meio a um quadro de sinais contraditórios: será que a geração XXI começa a escapar da razão cínica do mundo privatizado e segregado, ou estamos diante de um salto quântico na tentativa de liquidar a reemergência da política (apesar das potencialidades das chamadas redes sociais) pela via de novos movimentos de direita? A explosão da imagem (terror e medo) existe como uma combinação entre fenômenos de psicologia de grupo/massas e uma sedução pela barbárie parece superar o acontecimento. As câmeras ficam esperando os momentos de incêndio, todos esperam o momento em que a “plebe ruge” e as forças da polícia avançam com seus novos aparatos e instrumentos de contenção não letal. Os bando de rostos cobertos se chocam contra seres com armaduras da nova era medieval. Mas todos sabem que a violência e os resíduos mórbidos explodiram porque já estavam ali (com a banalização da violência e sua fabricação como indústria que se articula com a cultura do medo e a ideologia da segurança)? O evento e suas imagens assustam se relidos pelos incêndios e depredações, numa linha de entendimento que reinterpreta e transforma a desordem em inverso simétrico da ordem. Ouço muitas perguntas sobre a hipótese que o fascismo social reforce o apoio para a exceção, entendida como um antídoto para a falência dos poderes e para a desordem.


Muitos perguntam onde está a coordenação das lutas, onde estão as lideranças, sem tentar se aproximar das novas dinâmicas horizontais? Se m perguntar qual a razão de se ouvir tão poucas vezes as vozes dos movimentos que aspiram por políticas de acesso aos direitos como o MPL? Será que quando militantes de partidos são atacados por trogloditas neonazistas, quando as bandeiras políticas e ideológicas são vistas como problemas, não estamos vendo se preparar um cenário para uma ruptura institucional? Na distância que se colocam as lentes e na forma técnica de ler as imagens pela proximidade que distorce, os governantes desaparecem encolhidos e recolhidos em seus palácios e refúgios. Mesmo quando cedem na redução das tarifas as redes não são ouvidas.


Os porta-vozes da polícia se transformam no discurso que sopra na mídia elogiando a despolitização dos jovens e manifestantes, mas nas ruas morde esperando um tempo para que seja comprovada a provocação tantas vezes repetida pelos mais diversos tipos de atores que explodem depois de um tempo em que nenhum desdobramento ou demanda parece ter se materializado. O processo não é diferente de quando as torcidas vão aos estádios e para as ruas, não é diferente das explosões derivadas de intervenções e desocupações forçadas. O quadro de segregação sócio-espacial esta contaminado lósos invisíveis e intocáveis que povoam a nossa cena urbana, com a comprovada ausência de políticas para milhares que estão no limbo social e sob o efeito da enorme possibilidade com a experiência da violência e do arbítrio jurídico e carcerário. Nesses dias se disse que o número de jovens que desistiram de procurar
emprego é próximo dos 16%, mas bastam 1% dos jovens para ocupar os vazios, para uma pequena explosão de barbárie (face ao quadro de um país como a França).


O quadro explosivo gera uma fantasia, um tipo de gozo imediato que promove a reprodução da ação de explosão com seu efeito imagético, que permite a repetição do discurso contra a os radicais e baderneiros. Por isso, temos um quadro de temor cuja amplificação indica o reforço da cultura do medo e do terror que se manifesta em todo o processo histórico de massas.


O que se pode prever de maneira quase certeira é que a manifestação pacífica tende a virar conflito violento se for acompanhada de esvaziamento ideológico e provocação política contra a ideia de formar um novo sentido para a ideia que até agora correspondia ao partido político formal. A negação do caráter posicionado e da existência de coletivos significativos confunde o bom valor da horizontalidade e da autonomia com a fragmentação e a anomia. Numa dinâmica de repetição que levará os atores ao grande medo ou a uma fadiga por falta de horizonte, que exige consultas, assembleias e processos de construção de plataformas. A velocidade e o ritmo da imagem-evento instantânea acaba colocando no ar o nosso fascínio primitivo pelo fogo, que se volta contra as edificações e a arquitetura que se supõe representar o poder, mesmo que ele se exerça em outro lugar na esfera do capital e do Império.


Muitos perguntam se vamos ter grupos extremistas e grupos criminosos se movendo e dando as cartas nas ruas, ou esta tendência é uma linha menor de força do que normalmente já vemos nas grandes cidades, onde quase diariamente vemos arrastões, incêndios de ônibus, etc. Qual será o cenário das cidades? Vamos ter a polícia violenta e a experiência de controle e exceção experimentando novas armas ou uma política cidadã? O Congresso vai abrir as portas, os prefeitos e governadores vão reconhecer o movimento ou vão tentar explorar a fragilidade e o isolamento de Dilma? A Presidenta já acenou de maneira pálida com o reconhecimento do movimento, mas será que ela não precisa de novos interlocutores?


Hoje falo metaforicamente sobre a imagem do Anjo Exterminador, posto que a ficção nos ensina muito sobre a realidade amplificada pelo medo. A questão do potencial simbólico se coloca na disputa entre o acontecimento e sua imagem. Será que podemos voltar aos fundamentos constituintes e defender o artigo 6 da Constituição como programa mínimo que nasce das ruas para colocar a questão do controle social, dos gastos e das políticas públicas? Ou será que vamos para uma reforma elitista da política que busque aprofundar a democracia autoritária, tutelada e restrita fazendo como no passado o casamento da luta contra a corrupção com a concentração de renda e o poder golpista através do regime de exceção? Será que vamos marchar incertos em um processo prolongado de crise que acentuará a bifurcação entre autoritarismo e democracia e, terá uma conclusão que pode ir do retrocesso até uma democracia ampliada? Será que um novo processo constituinte poderá resolver e atualizar os desafios de uma efetiva democratização pós-neoliberal?


A crise do neoliberalismo que destruiu as políticas e direitos de bem-estar social não tem encontrado uma esquerda capaz de formular uma agenda alternativa para o século XXI. A direita não possui um programa que possa responder além do discurso da antipolítica e da criminalização dos outros, com seus modelos carcerários e seus campos de contenção de imigrantes. Mas os muros não podem conter a contradição entre globalização de mercadorias e barreiras para as pessoas, entre turismo e migrações, entre comércio e guerra.


O ciclo da autonomia relativa da política e da centro-esquerda começa a se fechar na América Latina, não basta insistir em governar melhor a economia nacional e ampliar o mercado de massas. A força alienadora e voraz do capital financeiro globalizado cria a dívida impagável e especula com a moeda e a terra. Na esfera simbólica, na segurança subjetiva e no desejo das pessoas a imaginação humana precisa do reconhecimento. A dimensão estética ainda prevalece sobre a dinâmica ética. Os sentidos e os valores para ordenar a dimensão simbólica se colocam como tema urgente para um cenário de fenômenos extremos que exigem um esforço de coordenação. Precisamos considerar a necessidade de auto-organização das forças sociais autônomas sem desconsiderar uma posição de mediação, negociação e escuta capaz de fazer um desenho de novos possíveis, de novas alianças com base na fonte de poder constituinte que se reabre com a demanda por direitos econômicos, sociais e culturais.
Não fossem limitações pessoais e subjetivas momentâneas eu iria para a rua. A “a maior arquibancada do Brasil” pode encontrar força no texto da Constituição. Que melhor momento poderia haver para bradar com ela na mão em defesa do artigo 6? Que melhor momento para a imediata ativação de alguns dos conselhos e o esforço de implementação das decisões das conferências políticas públicas? Para o Rio poderia ser dada uma prioridade para um novo mix de transporte no âmbito urbano-metropolitano; para a implementação de políticas de direitos da juventude que podem ser sob formas flexíveis de “serviço civil voluntário”; para a retomada da política de pontos culturais e de Casas Brasil; para a articulação e implementação das prioridades combinadas do PAC de favelas com o Morar Carioca.


O avanço da democracia nas cidades brasileiras depende da escuta da voz, da participação e do controle dos seus habitantes. Já ficou clara a exigência de redefinição e modificação de prioridades nos programas de governo das cidades, de modo a poder evitar a mega exploração. O importante é barrar a direção dada ao processo de especulação usando as políticas urbanas e os projetos em curso para os grandes eventos. Mesmo a China teve que rever uma parte significativa de suas políticas para atender a uma parte das demandas do protesto social e, frente a uma crítica moral sobre os rumos dos gastos com grandes obras. Uma meta geral para a pluralidade de atores sociais é garantir mais acordos e melhores políticas, de modo a que se possa fazer um pacto de acesso e redefinição do direito à cidade.


Escrevo essa nota diante de processos extremos para dialogar com os poucos que possa alcançar no ciberespaço. Immanuel Wallerstein deu indicações uteis para os momentos da crise do sistema mundo: 1)Que o processo é longo (o “outono”); 2) Que o quadro se bifurca entre a via capitalista de Davos e a via anticapitalista de Porto Alegre; 3) Que devemos apostar no avanço na demanda por direitos; 4) Que segundo a teoria do caos o fato da brutal incerteza quanto aos resultados só pode ser contrabalançado pela certeza de que faz diferença o que fizermos e como agiremos. Nossa ação interfere nos desdobramentos e resultados.


O grande evento para o mundo é a democracia que avança no Brasil. Como diria Milton Santos, precisamos de um novo pacto cívico-político cujas bases estão esboçadas na Constituição. O manto autoritário e oligárquico precisa ser afastado em nome da justiça social e ambiental. Sendo que, o povo organizado constrói a democracia. Sei que esse otimismo e desejo parece estranho, face ao quadro fragmentado, crítico, caótico e híbrido da disputa e das escaramuças em nossas cidades.


A bandeira nacional só tem significação quando os caminhos que ela indica tem sua fonte no povo se afirma pela letra da Constituição de 1988. Esperando que não tenhamos de nos desgastar com o gozo de forma estética que apela para um maniqueísmo imagético, sem deixar de sugerir uma agenda cujas bases éticas sustentam a República Democrática. Para o que cabe fortalecer o Estado social e um programa de economia mista de novo tipo. Cabe ampliar a forma de governar, onde a democracia representativa e a democracia direta possam interagir com novas esferas em rede cibernética com projeção no espaço, construindo o direito à cidade.




O retorno do poder constituinte (Ricardo Gomes)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

pancho villa revolucion mexico

A gestão neoliberal contemporânea articula duas formas majoritárias de poder. Por um lado, a gestão da sociedade feita pelas polícias, que se desdobra na transformação constante das pessoas em policiais. Todos policiando todos, numa misto de paranoia violenta e paternalismo emburrecedor. De outro lado, a gestão cool, limpinha, racional. Esta, aparentemente está acima da outra, mas uma implica e deseja a outra. Há entre elas uma troca e sustentação necessárias, que marcam todos os corpos. Às vezes uma das duas, por erro de avaliação ou por uma estratégia elaborada, tenta tomar a frente da outra.


Foi o que aconteceu ontem, principalmente em São Paulo, onde a vertente policial excedeu sua própria legitimidade em ser a violência excessiva dita “necessária”. Esta legitimidade não vem do povo, não emana do desejo da sociedade, e sim dos poderes constituídos, uma legitimidade desde o começo pura violência. Fez isso quando violentou membros notórios dos poderes constituídos: a imprensa. Mas não nos enganemos, mesmo que a imprensa conservadora fique inicialmente contra a PM, isto será passageiro, será um pequeno ajuste para que a violência funcional da PM possa ser mais uma vez apontada para o alvo de sempre, a população e seus desejos insurgentes.


A manifestação de ontem é fruto de um movimento relativamente longo. Outras já haviam sido feitas pelo mesmo movimento, inclusive uma no início do ano, quando conseguiu barrar o aumento da passagem. Nesta, porém, ficou claro que não se trata de uma manifestação com uma demanda única, não é “só” o aumento do preço da passagem. Rapidamente ela tomou a forma de uma revolta popular pela retomada da cidade, negando a gestão do tipo “cidade-empresa” e afirmando outra forma de viver coletivamente.
Nesse sentido, dentro dos movimentos, não pode prevalecer a obscuridade fetichista e falsa de certa horizontalidade imposta. Há quem diga ser horizontal e ficar criando regra do que pode ou não pode. Certas coisas ou são decididas pela multidão ou ninguém decide e seguimos o ritmo da forma mais proveitosa. Por exemplo, na caso das bandeiras de partido. Se nenhum partido tentar tiranizar os protestos não há pq negar o uso de bandeiras por quem está colaborando.


A violência constituinte exercida pela população é uma das bases da política, anterior a toda e qualquer formalização; é ela quem permite avanços e/ou retrocessos. Quando os poderes constituídos perdem isso de vista, ela, a violência, sempre latente nas democracias neoliberais, aparece, tanto como lembrança do processo político constituinte, quanto como forma atual e concreta para renovar este processo, fazer ele funcionar mais uma vez. Às vezes não há outra forma, quando a participação popular é vetada alguma faísca deve ser criada, algum caminho que possibilite mais uma vez a que cidade seja das pessoas.


Por fim, deve-se levar em consideração que possivelmente as manifestações sejam frutos da história recente, das articulações progressistas, de certos avanços que atravessaram o estado em um passado próximo, e das respostas e retrocessos em relação aos avanços — numa espécie de amadurecimento político, onde estas manifestações estão inseridas, contra as novas formas de exploração da vida, e, claro, segundo o desejo de querer mais, de responder criativamente às novas formas de exploração, com outros direitos, atrás de outras muitas conquistas.




Movimentações na Ilha-continental (Alexandre Magno Jardim Pimenta)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

Não temos amado acima de todas as coisas
Temos tido medo uns dos outros todos os dias
E todos os dias chamamos isso de nossa Vitória.
Amar eh um ato-livre e todo ato-livre é criador – Ousas!
Não permita que com o medo te levem a odiar as revoltas e alegrias
Não creia no vendido e dado em cada esquina desta vida Inglória.
Tanta gente pelas ruas, não é possível que não ouças,
O dia-a-dia esta insuportável, o que mais tu esperarias?
Sim, tantos apaixonados querendo para si a historia.
Muitos cantam o hino nacional, tu se enojas e caçoas?
Muitos querem organizar o carnaval e suas orgias
Outros querem aproveitar e capturar a escoria:
Outros ainda querem racionalizar o caos em que balouças
Ó ilha-continental, terra estuprada por capitanias,
Terra de pessoas indomáveis e livres em toda sua nudez e Glória.
Seja la o que for e com quem for que tu entoas
Contra isso ou aquilo, contra todas as explorações e vilanias,
Saibas que algo em comum nos une e recria:
É o amor, fruto humilde e precioso da árvore da liberdade,
E não se esqueçam que a terra quer que seja feita a sua vontade
E que seus frutos sejam distribuídos para todos




Algumas notas sobre conflito, produção de diferença, multidão e democracia nas recentes manifestações; e a atuação da mídia da corporativa e da esquerda nesse espaço e tempo (Bruno Tarin)

terça-feira, janeiro 29th, 2013

rjapaerea

Engana-se terrivelmente quem pensa que para o exercício da democracia é necessário exilar, anular e extirpar o conflito e a produção de diferença. Engana-se ainda mais quem só vê conflito na hora que manifestantes entram em confronto com a polícia, ou quando lançam sua indignação e revolta contra símbolos do poder, e dessa maneira se diferenciam da normalidade e diferenciam a própria normatividade. O conflito e a diferença são as moradas do exercício da democracia, sem o conflito e a diferença – e o exercício da liberdade que sempre os acompanha – não há democracia, pois estaríamos todos condenamos a vivermos presos ao já constituído, à imobilidade e à totalização unificante. O conflito e a diferença são as linhas que constroem os espaços onde emergem as possibilidades de criação de novas maneiras de viver, de constituir novos rumos para a democracia. O conflito conjugado com a produção de diferença pode ser entendido como a força que alavanca as possibilidades de fugir e ir sempre além da tentação de tornar democracia sinônimo de poder de coerção e de capital.

A separação feita entre manifestantes e vândalos, levada a ferro e fogo, ou melhor, a gás e borracha, pelo poder executivo retroalimentada pela mídia corporativa durante as recentes manifestações, faz parte do violento jogo de tentativa de anulação do conflito e produção de diferença no exercício da democracia. Da mesma forma é a exigência – feita por essa mesma dobradinha mídia corporativa/poder executivo – de que a multidão presente nas ruas reivindique e produza pautas claras, unificadas e que possam ser facilmente apropriadas e negociadas nos clássicos espaços da política partidária. A tentativa de anulação do conflito e da diferença passa, dessa maneira, tentando produzir duas grandes separações: uma é a produção do sentimento de que existe um movimento legítimo que busca a “Paz”, enquanto uma minoria de baderneiros violentos se aproveitam para saquear lojas, atacar a polícia e depredar prédios públicos e históricos. A outra separação é que existe uma minoria “consciente” e uma grande maioria de pessoas que participaram das manifestações sem saber direito porque estavam ali, sendo assim essa “massa disforme” ameaça tornar-se uma arma para o avanço dos golpistas reacionários. No primeiro caso a solução encontrada, tanto pela mídia corporativa quanto pelo poder executivo, é clara e explícita: imposição de autoridade e uso de força repressiva sobre as “maças pobres” para conter o golpe dado sobre a normalidade, a lei e a ordem. No segundo caso, a solução não é tão visível mas nem por isso menos palpável: organização dos manifestantes em pautas totalizantes e unificadas, ou seja, transformar a multidão que tomou as ruas em um monólito, enquadrando-a de maneira que possa dar-lhe uma forma que se encaixe no espaço, já pré-determinado, da política representativa e da produção de consensos – o que alguns insistem em chamar de democracia. A partir dessas duas grandes separações que a mídia corporativa opera o seu jogo clássico: julgando o bom e o mau e formando opinião, ou em outras palavras conscientizando e organizando a massa. Separações que da minha perspectiva, diga-se de passagem, são o verdadeiro golpismo. Contudo, essas separações não são somente produzidas pela mídia corporativa, elas também são utilizadas por uma esquerda acomodada em ocupar o poder sem a participação ampla e irrestrita da população, uma esquerda que vêm se distanciando das lutas e da vida fora dos espaços tradicionais e institucionais de poder, uma esquerda que parece ter esquecido – mas que está sendo lembrada – que suas planificações e pacificações não compõem e transformam nada sem a presença dos corpos que ocupam cotidianamente ruas e estradas de terra ao invés de gabinetes e salões.

A esquerda, diante do tempo e espaço atual, necessita reconhecer e lidar com o fato que a multidão que emergiu durante as recentes manifestações é dotada de um princípio auto-formativo, ou seja, a multidão ao criar está ao mesmo passo se criando. Em movimentos de alta velocidade e numa espiral virtuosa a multidão, composta pela diferença, através do conflito transforma e se transforma autoorganizado-se. No estrato do sentimento de autonomia de instituições já constituídas está ocupando progressivamente as ruas do Brasil, delineando em movimento os caminhos de novas instituições e de uma nova democracia. Analisar e avaliar as recentes manifestações a partir de pautas específicas e categorias não é mais materialmente possível e mesmo desejável, afinal o que se viu nas últimas semanas foi a luta por melhores condições de vida em seus mais múltiplos aspectos e, principalmente, por diferentes modos de vida que se materializam na desconstrução de certos tipos de relações de poder codificadas, para a afirmação de outras relações mais horizontais e democráticas, relações estas que tem sua finalidade e método o desejo de transformação e participação do governo. Trata-se, portanto, para essa esquerda que vimos nos últimos tempos assumir uma posição arrogante e autoritária, urgentemente, rever suas posições e acelerar a guinada rumo uma radicalização democrática e uma democratização radical. Com efeito, trata-se de afirmar e embarcar no caráter conflituoso e constituinte da multidão e das diferentes – até mesmo contraditórias – incontáveis e incomensuráveis lutas que marcam as vidas de todos aqueles que recusam viver sobre o domínio da violência institucionalizada – criminalização da pobreza e da liberdade – e das segmentações produzidas pelas desigualdades econômicas, políticas e sociais.

No tempo e espaço – atravessados pelo levante da qual somos todos parte e testemunho mesmo os que não foram às manifestações – emergem as possibilidades para todos e não só para os partidos, políticos e militantes de esquerda – que estão em um grau ou outro no governo e no Estado – fugirmos e irmos além da neutralização do conflito e da diferença. Passar do estrato da neutralização desses elementos para um estrato de sua afirmação como primordiais para o exercício pleno da democracia. Irmos além da atuação da mídia corporativa e de uma parte da esquerda que não mostram, debatem e atuam sobre as verdadeiras violências as quais somos, cotidianamente, expostos e que sentimos diretamente sobre nossos corpos. Violências que sem o conflito e a diferença como bases de uma nova composição de governo e de radicalização democrática e democratização radical não poderão ser transformadas. A violência de sermos submetidos a viver de salários ou de projetos que nos precarizam, ou seja, a violência da exploração; que são ditadas de forma verticalizada políticas econômicas desenvolvimentistas; que partidos políticos – a política representativa – não tem, a algum tempo, nenhuma ancoragem com a população a não ser eleitoral; que tentam transformar nossos destinos e vidas em negócios extremamente lucrativos para políticos e empreiteiras; que a polícia é extremamente violenta e passeia com os bicos dos fuzis para fora das janelas de seus carros produzindo um estado de medo generalizado; que são feitas chacinas no campo e nas favelas induzidas pela mídia corporativa através do sentimento de ódio aos pobres, negros e indígenas; que a especulação imobiliária está nos expulsando de nossas casas; que os novos regimes trabalhistas e o sistema financeiro estão nos afogando em dívidas; que o sistema de transporte público é uma verdadeira máfia que junta Estado e mercado etc.

Apesar da tentação de entrarmos no jogo da mídia corporativa e de parte da esquerda de encontrarmos, dentre os manifestantes, culpados para que se possa ser possível separar o joio do trigo, encontrando vândalos ou golpistas de direita, faz-se necessário antes termos em mente a positividade da multiplicidade que produziu a multidão que tomou as ruas recentemente; e que não necessitamos de instituições hierarquizadas para organizar nossas manifestações e menos ainda da mídia corporativa para nos dizer quem somos ou deveríamos ser e fazer. Falando, especificamente, sobre as manifestações da qual participei, posso afirmar que os confrontos ocorridos no Rio de Janeiro durante as manifestações de 17 e 20 de junho não foram atos isolados de vândalos, para ver isso basta atentarmos para o fato que os principais alvos dos manifestantes foram prédios públicos, bancos e a própria polícia. Não é por acaso que foram estes os alvos, afinal estes são os maiores símbolos e atores da opressão e da violência a qual somos submetidos todos os dias, símbolos máximos da dupla mafiosa Estado/mercado – base da revolta generalizada expressa por todos os manifestantes de diferentes formas. Cantar o hino e pintar a cara de verde e amarelo também não me parecem ser uma demonstração da ascensão do fascismo revigorado por uma massa disforme tropicalizada, e sim uma forma de se manifestar daqueles que não estão acostumados ou não desejam as práticas militantes da esquerda, mas nem por isso são despolitizados ou incapazes de se manifestar criticamente, e levado a última instância de governar a si mesmo. Estas são expressão da multidão assim como as cirandas, a entrega de flores aos policiais, as bandeiras e cartazes, a carnavalização, os carros de som com palavras de ordem, as bandeiras etc. Expressão da potência da diferença conflituosa que marca a multidão que ocupa todos os espaços e tempos que convivemos em comum.

As manifestações não começaram e não se encerram em junho de 2013 – apesar desses dias terem entrado para a história do Brasil e com certeza terem marcado nossos corpos – novas manifestações virão, novos desafios e impasses aparecerão, e a força da multidão se mostrará, em grande parte, em não aderir as grandes separações do discurso conservador. Os corpos tropicais mestiçados encontraram a maneira de penetrar o governo, agora é avançar buscando na produção de diferença e conflito os caminhos para a autodeterminação de nossas vidas e os novos rumos em movimento da democracia.




Um dia para se lembrar (Vladimir Santafé)

sábado, janeiro 26th, 2013

tanksbig

As multidões tomaram as ruas. Descontrole, excesso, multiplicidade. Os devires minoritários conectaram-se às redes de informação e autoprodução social e econômica, tomando as ruas, sempre nas ruas, no asfalto pisado das gentes que se pintam de todas as cores e ideias, onde todos os possíveis se encontram e se confrontam. Uma produção desmedida de subjetividades, e totalmente encarnadas no concreto, no dia a dia das vozes que resistem à exploração e expropriação capitalistas, reinventado a própria vida. Não há espaço para dialéticas, dos contrastes, nascem “monstros” cheios de sangue e vontade em suas bocas, querem devorar a cidade que lhes foi tomada, saqueada, pilhada pelos novos senhores do Império made in Brazil. Há, como pano de fundo, uma teia de complexidades que deixariam um matemático atônito, as infinitas conexões de Leibniz nos remeteriam de “novo ao mar”, onde novas conexões seriam refeitas e desfeitas. Seria preciso uma escrita-fluxo, uma escrita nômade para reconhecer e identificar o que foi ou o que está a se fazer, em processo ininterrupto e neste exato momento, a manifestação que reuniu quase 1 milhão de pessoas, bandeiras, palavras de ordem, cartazes, gritos, centelhas e cigarras (os que misturam o trabalho ao canto); da zona sul à favela, das periferias ao centro, em movimento centrífugo, num certo lugar cujo nome tornou-se sagrado, no melhor sentido do sagrado, na mais pura imanência do sagrado – um encontro da terra com seus amantes, fluxo orgástico de singularidades. Um dia para se lembrar.

“Eu vi um monstro, um monstro com mil braços, mil pés e mil olhos, e ele era horrível e belo ao mesmo tempo.”

O MPL, Movimento pelo Passe Livre, em vias de reconstrução no Rio de Janeiro após um período de fragmentação das lutas e rebaixamento das suas pautas, tomou as ruas da cidade de assalto, espalhando-se por todo os seus cantos e poros. Sua luta contra o aumento das passagens envolveu toda a gente que anda e vive sobre ela, isto é, camelôs, funcionários públicos, moradores de rua, comerciários, advogados, professores, etc. O cognitariado urbano uniu-se à potência dos pobres. A vertigem que os secundaristas criaram mobilizou os corações e mentes que andavam adormecidos.

Desse grande despertar surgiram demandas reprimidas e incontidas que se espalharam pelas ruas como um enxame: “Não queremos Copa, mas Saúde e Educação”, “Pelo Fim da Corrupção”, “Contra a Cura Gay”, “Ideias são à prova de bala (de borracha)”, “Contra o Racismo”, “Onde está o Bonde de Santa Teresa?”, “Contra as Remoções”, “A Cidade nos Pertence”, vozes que juntaram-se à massa multitudinária que ocupou de uma só vez os espaços incompletos da cidade e ecoaram suas reivindicações país e mundo afora, nos reensinando a falar. Dentre uma das pichações nos muros da Av. Rio Branco lia-se: “Um país mudo é um país que não muda.” Misto de arrepio e encantamento, eu estava diante de um momento histórico. Todos os momentos são históricos, mas alguns falam mais alto. As revoluções, como escreveu Kant, são fruto do entusiasmo.

O “monstro”, no entanto, tem mil pés e mil braços, para o meu espanto e comicidade, também vi renascer a bandeira do Império brasileiro com seus brasões de Orléans e Bragança estampados num fundo verde e amarelo. Num tempo em que a escravidão era uma norma e os brancos uma raça superior – um tempo que deve ser esquecido, mas reavivado pela memória – para nunca mais retornar -, pelo movimento negro que também estava presente, ativando a luta contra o racismo capilar dos poderes que nos cercam e formam o gosto e os valores da maioria, das salas de aula aos cultos evangélicos que demonizam a cultura negra, mas também contra o racismo instituído pelo Estado através da violência policial, o assassinato em massa da juventude negra que reside nas periferias, e a negação de seus direitos, uma outra forma de assassinato que o biopoder sabe utilizar muito bem, quando trata da saúde e da doença das populações, isto é, daqueles que merecem recebê-la e daqueles que não a merecem. Um pouco mais tarde, nos muros da Av. Presidente Vargas, o antagonismo se materializava na frase “pelo fim dos impérios!”

Os braços do “monstro” são tentaculares, um cartaz defendia o neoliberalismo, “Menos Estado, mais Mercado”, outro sustentava as palavras de ordem da grande mídia como uma verdade suprema, bem ao gosto dos pastores, um fim em si mesmo, apocalíptico, defendendo com os olhos “esbugalhados de ódio” os discursos consensuais que a mídia produz para conservar o poder dos 1% que expropriam e exploram o trabalho comum da multidão. A bandeira do nacionalismo sem partido ganhou força entre os manifestantes, assim como o discurso antipartidário, estimulado pela grande mídia e pelos partidos da direita, dos programas políticos lançados após a cobertura das manifestações pelo país, como o do PPS (Partido Popular Socialista), aliado aos liberais conservadores do DEM (Democratas) e aos neoliberais do PSDB (Partido Social Democrata Brasileiro), dos comentários mais reacionários de Arnaldo Jabor, que inicialmente gritou que “os jovens que se manifestam não valiam 20 centavos”, ao oportunismo desavergonhado dos apresentadores dos telejornais, cuja pauta no momento se dirigia, principalmente, ao enfraquecimento do PT (Partido dos Trabalhadores) no poder, mas também à incitação da violência aos militantes dos partidos de esquerda presentes nas manifestações, como a matéria onde militantes do PSTU (Partido Socialista dos Trabalhadores Unificados) são cercados e ameaçados pela massa em frenesi fascista, ou na imagem, diversas vezes repetida pelos noticiários, de dois manifestantes ensandecidos rasgando a bandeira da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

Sobre essa questão, o próprio MPL de São Paulo lançou uma nota que condenava a ação dos grupos paramilitares da extrema direita e de alguns poucos manifestantes empolgados ou idiotizados pelas palavras vomitadas pelos meios de comunicação, dizendo-se apartidário, mas não antipartidário, admitindo, inclusive, a construção conjunta das pautas do movimento com os partidos de esquerda que o compõe. E esta nota reflete a posição do movimento nas principais cidades do país.

As manifestações que vimos dominar as ruas e o cenário político do país, forçando a presidenta Dilma a convocar uma reunião extraordinária com os prefeitos das principais cidades do país e os governadores da federação, para discutir um plano emergencial de mobilidade urbana e maiores investimentos nas principais demandas dos manifestantes, saúde e educação, além da força motriz do movimento, a melhoria e o desenvolvimento dos transportes e o fim do aumento abusivo das tarifas, antecipando e pressionando sua própria base governista, inicialmente avessa, a aprovar 100% dos recursos do petróleo para a educação, tal como a reforma política ou o financiamento público das campanhas eleitorais, que impede os lobbies empresariais, mas não ultrapassa a hierarquização partidária que se consolidou até então, não teve uma direção, mas várias. Além, é claro, do recuo do aumento das tarifas em quase todas as cidades do país. Realidade que há pouco tempo atrás, devido ao apoio maciço da grande mídia, de todos os setores do governo e praticamente todos os poderes do Estado (com algumas raras exceções e parcas, mas possantes, vozes no legislativo e no judiciário), da imensa votação que os mandatários tiveram nas urnas e do apoio incondicional do próprio governo federal, seria inimaginável se não fosse pela força multitudinária das ruas. Esta é e foi uma manifestação formada pelas redes, inspirada pelo recente movimento de ocupação das ruas na Turquia, movimento muito próximo da luta que travamos contra a elitização das cidades pela proximidade dos megaeventos, e que não se resume a um ou dois meses, mas a anos de luta contras as remoções, da resistência das ocupações urbanas ao capital imobiliário e ao racismo estatal dos planos governamentais, à mais recente luta dos moradores do Horto na defesa de sua moradia e dignidade.

Além de uma “remota”, mas consistente, influência da Primavera Árabe, paradigma da resistência popular ao autoritarismo dos governos, sejam eles ditaduras ou democracias representativas reféns das grandes corporações. Com a diferença que, dessa vez, e talvez em toda a história da democracia mundial, pessoas não organizadas, em sua grande maioria, desceram às ruas aos milhares e em várias partes do continental Brasil e defenderam suas causas sem medir as consequências dos seus efeitos, espalharam suas reivindicações nas teias das redes sociais e das cidades, estabelecendo uma conexão entre elas, como se o virtual tivesse a necessidade premente de se atualizar, de ganhar as ruas e ser ouvido.

Os olhos do “monstro” estão nas ruas, mil olhos que enxergam além, que ultrapassam o conformismo das massas e conquistam seus espaços com alegria e liberdade, potencializando seus corpos e mentes na multidão. Mas também se encontram na repressão aos movimentos, dos olhos que atravessam o Facebook e perseguem os militantes e ativistas, cerceando seus direitos e voz, aos olhos da polícia, que perseguiu dezenas de manifestantes cidade afora, com balas de borracha e gás lacrimogênio, do Centro da cidade até Laranjeiras, segundo os relatos que recebi de companheir@s, muitas vezes prendendo-os sem provas ou simplesmente os ameaçando.

A crise de representação ou o coronelismo não está morto

Um companheiro da militância que esteve presente às duas últimas manifestações organizadas pelo MPL me disse que se tivéssemos um partido com um projeto revolucionário, de derrubada do poder burguês ou hegemonicamente burguês, neste momento, faríamos uma revolução no país. Na primeira manifestação, dezenas de manifestantes, talvez uma ou duas centenas, forçaram a ocupação da ALERJ (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro) durante 3 horas seguidas, enfrentando a polícia militar com pedras, coquetéis molotov, pedaços de pau, formando barricadas com o que tinham às mãos.

Na segunda manifestação, na qual estive presente, os manifestantes tiveram a mesma disposição de enfrentamento, mas agora contra a Prefeitura. Eles se mantiveram firmes, enfrentando um contingente policial ainda maior e mais agressivo, usaram banheiros químicos como barricadas, arremessaram grades e pedras contra a polícia, uma força quase suicidária, mas extremamente ativa e disposta a tudo, liberando seu ódio represado por anos de violência estatal, concentração do poder e exploração econômica. Não é à toa que os centros do poder mais ativos na sociedade foram alvos de sua raiva: a ALERJ, a Prefeitura, os bancos, a grande mídia (tanto os repórteres e cameramen das grandes emissoras como um carro do SBT foi queimado durante a manifestação). A mídia vende a ideia de que esses manifestantes mais exaltados são uma minoria, o que não deixa de ser verdade, e que a maioria se manifesta pacificamente. Mas mesmo entre os “pacíficos” há uma violência implícita ou explícita contra os centro do poder e suas figuras mais representativas. Talvez a diferença entre uns e outros é que os segundos tenham mais a perder, pois na maioria dos casos, os manifestantes mais agressivos que participam dessas ações são jovens secundaristas em sua maioria pobres, constantemente humilhados e subjugados pelos poderes ou esquecidos pelos grandes planos econômicos, seja o policial, o patrão, o pai patriarca que o agride, o diretor da escola. O poder tem várias faces e muitas delas convergem para a resistência, algumas vezes as resistências se excedem e ultrapassam as forças que as movem. Não que isso justifique todas as violências praticadas, a violência, na maioria dos casos, deve ser sublimada e desdobrada em outras formas de luta, mais criativas e solidárias, assim como é certo que muitos desses atos violentos são injustificáveis. No entanto, “muitos falam da força do rio que arrasta a tudo em seu caminho, mas poucos se lembram das margens que o oprimem.”

O companheiro, talvez, em sua análise, não tenha levado em consideração que a forma-partido e suas estruturas hierárquicas moldadas pelas disciplinas da fábrica fordista e taylorista estão em crise e perderam a capacidade de representar, ou enfraqueceram enormemente a sua capacidade de representar. Não só os meios que nos modulam são outros, mas ondulantes como a serpente e menos subterrâneos que a toupeira, como a produção de subjetividades e as relações de poder que as constituem e são por elas descodificadas ou transformadas se propagam como redes, de forma horizontal e flexível. O poder tornou-se mais flexível, mas não menos eficiente, e a resistência mais autônoma e independente do poder. Pensar a forma-partido hoje como um grande condutor das massas é algo historicamente inviável, assim como pensar a tomada de poder por um partido. Ou a revolução é internacional ou ela está fadada ao fracasso. Ou temos uma pluralidade de partidos e movimentos ou uma grande organização ou movimento que expresse a multiplicidade das singularidades que compõem as lutas da atualidade – uma multidão.

O coronelismo está morto e enterrado historicamente, ele se limita à Primeira República (1889 – 1930), mas outras formas de concentração de poder e distribuição dos privilégios se desenvolveram no Estado brasileiro. Como escreveu José Murilo de Carvalho, o mandonismo e o clientelismo perduram e constituem a dinâmica das relações de poder no Brasil. Os partidos majoritários no país, incluindo os partidos da esquerda, não romperam com essas relações em definitivo, mesmo quando a sua dinâmica interna se propunha a outras relações, mais flexíveis e plurais, movimentos que geralmente eram bloqueados pela lógica eleitoral e a conservação ou obtenção da governabilidade. Um tipo de racionalidade que em momentos de conflito, para manter a ordem, só consegue pensar como a repressão. Os partidos que nos “representam” não avançaram no sentido de criar mecanismos de democracia direta e inserção dos movimentos sociais, das organizações dos trabalhadores e dos indivíduos na dinâmica e nas decisões econômicas e políticas da sociedade. E para que isso acontecesse, foi preciso um movimento com a força de atração e mobilização que presenciamos, um movimento mais forte que os poderes que o bloqueiam, mesmo com todas as contradições que o caracterizam. E é preciso avançar mais, pensar, como na frase de Brecht que muitos manifestantes usavam, que “nada deve parecer impossível de mudar”, para superar as injustiças do capitalismo e enterrar de vez a herança dos coronéis.







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