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A opção democrática contra os novos fundamentalismos

sábado, março 31st, 2012

Intervenção em “Encontros Moviola” na Livraria Moviola, RJ, organizado por Rodrigo Guéron  em 21/10/2010

Por Cunca Bocayuva

“O governo Lula e o manejo da potencialidade do capitalismo. A mobilidade plebéia”

Vou tentar pensar três coisas: o momento em que estamos; o que está em jogo; e as opções que temos. Estamos tentando pensar a conjuntura. Já vimos que há o modo de administração da política e da estratégia de sustentação do governo Lula, que definitivamente não dá certo.

Não dá certo fazer uma política centrada nos aparatos e no fisiologismo. Vulnerabiliza, leva a mensalão, enfraquece e pisa na militância.
Não dá certo fazer um tipo de campanha conduzida pelos publicitários, por cima, de salto alto. Não dá certo, tem de convocar a militância.

Não dá certo tentar garantir a vitória, na ideia da base da sustentação: precisa de mobilização crítica. Isso aprendemos e agora está confirmado. No primeiro turno, as máquinas financeiras predominam, os interesses desproporcionais, os interesses menores predominam, a base de apoio meio que desaparece, os parlamentares eleitos nem sempre vêem para o protagonismo, e é preciso uma energia real de política.É um aspecto interessante de estarmos vivendo esse segundo turno. Isso suscita paixões.

O lado ruim é que evidentemente, não desenvolvemos uma estratégia de avaliação crítica, de dizermos o que, além do que Lula já fez, a Dilma poderia avançar? Não fizemos avaliação crítica e autocrítica, não assumimos um tipo de postura analítica crítica e um tipo de mobilização programática. Agora e depois, temos um preço a pagar por isso. Mas o adversário não tem programa.

O adversário não tem programa, porque o programa apresentado pela experiência do governo Lula é um plano de mobilidade social muito intensa, quero dizer, maneja toda a potencialidade do capitalismo brasileiro no que é possível, de ampliar mercados de massa, garantir segurança alimentar, produzir dinâmicas redistributivas, fortalecer ações educativas, garantir políticas de identidade, promover direitos setoriais…

Evidentemente, embora não realize reformas na propriedade fundiária (mais difícil entrar na questão da propriedade da terra), o governo Lula foi governo em que se viu brutal mobilidade social. Há hoje 23 milhões a menos de pobres e 30 milhões a mais de pessoas em novos padrões intermediários, que se pode chamar de uma classe média, e que o pessoal tem chamado de “uma gentry”.

Estamos falando, em 200 milhões, de uma virada de 50 milhões. É claro que, quando esses 50 milhões de pessoas fazem essa virada, elas não têm nenhuma obrigação de pagar qualquer tributo eleitoral pela própria virada. Elas viram como donas de seu nariz e da forma como vão expressar-se.
Cabe evidentemente às forças políticas organizar a energia dessas 50 milhões de pessoas, disputar com eles os novos desejos que eles passam a ter.
Marina [Silva] entrou nessa chave ambivalente desses desejos. Ela trabalhou o desejo da ordem da “santidade”, de uma moralidade abstrata, articulada por interesses e garantias de um pensamento de segurança religiosa, junto com um mecanismo de desenho da temática ambiental, que de fato ficou fragilizada e tem limites, no processo do governo Lula.

E o adversário, i.e., aquilo que vem desse liberalismo tosco a que ficou reduzido o PSDB, e dos aparatos que são de um capital bancário de uma aristocracia intelectual que vem de um Paulistério – pq Serra é um reduto de um Paulistério que articula um conjunto de interesses – procurou fazer essa sua política de classe que não pode ser explicitada, se transformar [em plataforma política], essa política de cultura de classe, esse mal-estar com a vitória de um operário, que nunca foi engolido, com alguém que vem de baixo, com essa vitória de Lula, essa vitória plebéia.

A era Lula trouxe mobilidade plebéia. Tem mulher, negro, favelado, operário, na vida social brasileira, circulando na cidade. O tema da favela está posto.

Evidentemente, independentemente de o governo Lula não ter resolvido tudo isso numa chave de esquerda, a sociedade brasileira produziu isso. As questões apareceram, as questões ficaram visíveis. Não dá para esconder a cor das pessoas, o sexo, os desejos, tudo isso ficou visível. Não dá para marchar pra trás. Minha esperança de que Dilma vença brota daí, de que não dá pra marchar para trás. Tudo isso ficou visível. [fim da Parte 6, em http://www.youtube.com/watch?v=KsThwc71P2A&feature=related]

Segue em Parte 7 http://www.youtube.com/watch?v=xSFHIaqnnkQ&feature=related

Mas sustentar isso exige que se entenda a possibilidade de manejar o mal-estar e o medo. O que se fez: uma operação para produzir uma ideia de temor e de demonização da Dilma. Esse processo funcionou, por sua vez, porque Dilma estava prisioneira de um mecanismo de “só precisamos administrar os louros do governo Lula”. Mas os louros do governo Lula são vitórias de todos e tem de ser defendidos por toda a sociedade.

Há também uma avaliação do governo Lula que diz que o lulismo pôs muita gente no governo, gente que entrou por concurso. Seja como for, essas pessoas existem, estão trabalhando. Mas essas pessoas não foram mobilizadas para defender as políticas que elas mesma fazem. Eles devem sentir orgulho do que fazem, mas têm de agüentar os ataques que fazem ao governo Lula pela política de Cultura. Os gestores públicos e assessores não trabalham na campanha contra os que atacam o governo Lula. O pessoal do ministério da Cultura, por exemplo, que foi barbaramente atacado. Gil foi barbaramente atacado. Mas o pessoal do ministério não sai para a campanha de defender o que eles mesmos fazem. No Rio Grande do Sul, por exemplo, há uma prática generalizada: dá 6h da tarde, acaba o expediente, e o pessoal vai pra rua, fazer campanha cada um pro seu partido. Mas em grande escala no Brasil, isso não existe.

Essa forma “partido” ela se traduz hoje de outras maneiras, em redes, em processos sociais, em espaços de produção intelectual, em máquinas produtivas. Esse espaço em que estamos aqui é espaço político: nós estamos “tomando partido”, “partidarizando”, nesse sentido, a discussão.
É fundamental que se tome partido, isso produz a democracia. No conjunto, isso vai produzir um resultado. Não há problema algum em a mídia, O Globo, ser partidarizado. Tudo bem, eles também tomam partido, normal que tomem, são partido, revelam sua face. Isso produz nitidez.

O problema é quando mobilizam um modo de produção permanente que combina intriga, medo, prejulgamentos etc., um conjunto de tecnologias ideológicas que assumem uma produção brutal de preconceitos e repulsas, em lugar de discutir as políticas! Não se vai para a televisão para discutir na TV se foi interessante a política educacional e universitária exitosa executada no país. Não se discute que para ciência e tecnologia, em vez de 400 milhões, temos hoje 4 bilhões de reais. Não se discute a política dos pontos de cultura, os territórios indígenas, a política quilombola, não se discute que o adversário não elegeu um negro. Não se discute que as mulheres estão na cena pública. Não se discute que Plínio e Marina foram do governo Lula. Não se discutia isso. Foi como se Marina não tivesse sido ministra do Lula. Não se discute que Lula garantiu Marina, anos a fio e, reciprocamente.
Claro que ela tem direito de avançar. E evidentemente, temos o direito de cobrar MAIS de Lula e da Dilma. O segundo turno, pra mim, é ocasião para dizer que há algo do petismo a ser resgatado. Não se pode reduzir o petismo a um conjunto de lógicas a que está reduzido hoje [por muitos petistas], ou a um lulismo.

O petismo é uma idéia que permitia estrategicamente uma nova prática política de massas, que pegava os que vivem de seu trabalho e da sua produção; e punha no centro da vida pública. A idéia de que os que produzem precisam ter cidadania, que os pobres  que produzem riqueza e o trabalho vivo tem de estar no centro da política. Isso foi trazido pela era Lula e não pode ser escamoteado.

Mas isso nos veio numa chave de uma demanda das pessoas que é tanto por emprego, quanto por consumo. A era Lula avançou nas dinâmicas do consumo, mas permanece prisioneira das limitações financeiras globais, de um modelo exportador de commodities, de uma sociedade que ainda tem um desejo marcado pelo individualismo, por formas problemáticas no trato da vida cotidiana etc.
Mas o mais grave, na conjuntura que estamos vivendo, é que o objetivo é sempre criminalizar o outro, criminalizar o desejo do outro: olhar o jovem negro e ver um criminoso potencial; olhar o desejo da juventude e criminalizar; olhar a independência da mulher, e criminalizar. Criminalizar a independência da Dilma e criminalizá-la. Marina também é independente, mas não foi criminalizada. Alguém viu o marido da Marina? Ela tem marido, mas não foi criminalizada por ter voz própria, tem mobilidade social, tem potência do feminino e da mulher, tem potência do índio. Tudo isso há na sociedade brasileira. Em alguns casos essas coisas são criminalizadas, não em outros.

Tudo isso está no Programa de Direitos Humanos III. Por isso ele foi atacado. Ele expressa programaticamente essas demandas e essas potências. De fato, nem se leu, de fato, o Programa. Porque o Programa defende direitos básicos, mínimos, que tornam a sociedade brasileira extremamente avançada. Porque a sociedade brasileira necessita de direitos civis e políticos e de liberdades – porque nossos liberais não defendem liberdade radicalmente – à altura de uma modernidade contemporânea. A sociedade norte-americana e a sociedade iraniana com seus fundamentalismos precisam reconhecer esse protagonismo dos direitos, dos homossexuais, das mulheres, sobre a juventude, sobre os direitos da infância. Esses direitos são permanentemente atacados há muito tempo. Porque tudo tem de ser resolvido na chave criminal. As cadeias estão cheias, e adianta o quê? A Polícia, quanto mais é violenta, mais é corrupta e inverte seu papel.

Essas posições que se manifestam aqui não são posições oficiais, são reflexões pessoais, mas têm o direito de se expressar na sociedade em diálogo, em tensão, com o campo governista. Afirmando certos aspectos das políticas e das liberdades construídas.

Não vejo problema algum no que diz O Globo, inclusive porque já é possível montar alternativas midiáticas produtivas, como vemos aqui. Produz-se assim uma quantidade enorme de informação. Muita gente nos ouve, nos vê e nós vemos outras coisas. O maior medo da mídia é a mídia. O maior medo da elite é a contra-elite que surgiu na mobilidade plebéia que a realizou no Brasil. Há outra elite que aparece com outra cara, outra cor, outro jeito e diz “Também quero participar da festa”.

E há muita gente na Índia, na China, nos EUA, por aí, muita gente olhando a festa brasileira e dizendo “Queremos fazer como vocês”. Para nós é pouco. Nós reclamamos. São anos e anos de peso escravista, de peso colonial, de exclusão. Mas já há excesso de riqueza. E temos de negociar a riqueza brasileira.

A Reforma Fiscal? Tem de vir. Fazer com que o capital pague mais, pelo seu custo de longo prazo, pelo que custa à sociedade. Reforma Política? Fazer com que o recurso público democratize mais a sociedade. Por isso não é feita. Fala-se dela, mas não se faz.




A opção democrática contra os novos fundamentalismos > Cunca Bocayuva

quinta-feira, novembro 25th, 2010

Intervenção em “Encontros Moviola” na Livraria Moviola, RJ, organizado por Rodrigo Guéron  em 21/10/2010

Cunca Bocayuva

“O governo Lula e o manejo da potencialidade do capitalismo. A mobilidade plebéia”

Vou tentar pensar três coisas: o momento em que estamos; o que está em jogo; e as opções que temos. Estamos tentando pensar a conjuntura. Já vimos que há o modo de administração da política e da estratégia de sustentação do governo Lula, que definitivamente não dá certo.

Não dá certo fazer uma política centrada nos aparatos e no fisiologismo. Vulnerabiliza, leva a mensalão, enfraquece e pisa na militância.
Não dá certo fazer um tipo de campanha conduzida pelos publicitários, por cima, de salto alto. Não dá certo, tem de convocar a militância.

Não dá certo tentar garantir a vitória, na ideia da base da sustentação: precisa de mobilização crítica. Isso aprendemos e agora está confirmado. No primeiro turno, as máquinas financeiras predominam, os interesses desproporcionais, os interesses menores predominam, a base de apoio meio que desaparece, os parlamentares eleitos nem sempre vêem para o protagonismo, e é preciso uma energia real de política.É um aspecto interessante de estarmos vivendo esse segundo turno. Isso suscita paixões.

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“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí!” (Pedro Mendes)

quinta-feira, novembro 25th, 2010

“Ei, você aí, me dá um dinheiro aí, me dá um dinheiro aí!” (ou quem paga pelo carnaval que todos criam?)

Pedro Mendes

Seguindo uma intuição que recomenda ‘impessoalizar’ questões desse tipo, seria apropriado considerar, em primeiro lugar, que o que perdeu as últimas eleições foi um projeto absolutamente vazio, carente de perspectiva e que substituiu qualquer proposta alternativa por uma violência e um conservadorismo que em 1964 já se apresentavam como o verdadeiro risco (tragicamente confirmado) à democracia. Por outro lado, também não seria preciso afirmar que quem venceu as eleições foi a candidata do governo ou da “continuidade”, ou mesmo seu partido e a base política que lhe dão apoio. (mais…)




P*** q** o p****! (Barbara Szanieck)

quinta-feira, novembro 25th, 2010

Barbara Szaniecki

As eleições presidenciais iniciaram de modo convencional com os partidos políticos tratando de contratar reputados profissionais de marketing para cuidar das campanhas de seus candidatos nos tradicionais meios de comunicação. Todavia, duas novidades se faziam notar. A primeira era a presença de duas mulheres concorrendo à Presidência do Brasil. Desde o início, a campanha de Dilma foi marcada pela tentativa por parte dos marqueteiros de transformá-la em uma “moça bem-comportada” nos moldes burgueses descritos por Simone de Beauvoir em suas memórias: como se vestir, como se maquiar, como sorrir para a imprensa. Também sob holofotes, Marina realizava uma mistura de estampas e adereços ousados com coques e saiões pudicos. Já Serra se mantinha burocraticamente cinza da cabeça aos pés. A segunda novidade com relação às eleições presidenciáveis anteriores fora o uso das ditas “redes sociais”, onde por “redes sociais” entende-se não somente a ferramenta tecnológica agregadora de conteúdos mas, sobretudo, o agenciamento social agregador de desejos. Todos os candidatos tinham um site de campanha oficial na internet, mas sabiam que era preciso ir além (aprendizado da campanha de Obama nos EUA). Quem, de cara, melhor entendeu a necessidade dessa mobilização foi Marina Silva ao dar sinal verde ao “Movimento Marina Silva”, talvez pelo fato de participar de um partido (PV) menos consolidado do que os dois outros concorrentes (PT e PSDB). Segundo indicação do site do movimento, a divisão de tarefas, por assim dizer, se dava da seguinte forma: enquanto o movimento cuidava da “metodologia e facilitação”, o partido garantia a “estrutura”. Contudo, o incentivo a uma participação mais autônoma dos cidadãos na campanha se deu, por exemplo, com as Casas de Marina. Enquanto isso, a rede social de apoio a Dilma Roussef apostava todas suas cartas nas ferramentas tecnológicas convidando-nos a criar hiper-mega-superlinks. A campanha de Serra na rede, como ficaremos sabendo mais tarde, embrenhou-se por caminhos sombrios.

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Vilma!! Vencemos, enfim! Mas, quem quer saber? (Cristina Ribas)

quinta-feira, novembro 25th, 2010

Sobre a “censura” na intervenção de Roberto Jacoby na 29ª Bienal de Arte de São Paulo

Cristina Ribas*

Cristina Ribas*

Apagou-se o que era mais visível. O foco da ação havia sido, sim, sobre uma imagem. Simultaneamente produção e captura. Metros e metros de papel pardo foram suficientes para cobri-la inteira. Dois homens e uma escada. Metros que cobriram literalmente aquela imagem. Noutra obra, também um trabalho braçal havia sido empenhado, obviamente mais demorado sobre a parede cinza. A eficiência da limpeza retirava com gestos lentos a tinta branca. Mais lentos do que haviam sido as rápidas braçadas de Cripta Djan, com spray, escrevendo sobre uma das obras mais caras da exposição. Algumas horas depois e já nem se via qualquer rastro do corte e do risco. Ele havia pixado diante dos olhos de todos sobre a obra de Nuno Ramos: “libertem os urubu(s)”. Ele trouxe outra imagem. Naquela tarde de sábado, 25 de Setembro, em que tudo convulsionava, não se distinguiam mais as participações inscritas no megaevento – se eram artistas, curadores, brigadistas, grafiteiros, militantes. Todos se confundiam em corpos irados.

Observando atos precisos de uma maquiagem esquecedeira, nos interessa aqui observar pela negatividade de uma outra força que não as ditaduras de estado, mas sim a economia ela mesma, a forma como uma imagem foi conduzida a uma leitura limitada e logo apagada temporariamente. Ao redor dessa imagem, não um teatro de representações, mas a batalha real das articulações críticas, e as positivações de um poder de controle que transforma o artista-convidado em praticamente um inimigo de estado.i O contexto, por incrível que pareça, é uma Bienal de Arte.ii Lugar onde se sabe agora que as imagens não podiam ter almas… A exposição, produzida na forma de um espetáculo da cultura, ocorria ao mesmo tempo em que a campanha para as eleições para Presidência no Brasil. Esse fato político se torna outro grande espetáculo: a emissão de um sem número de ficções, acusações, julgamentos como nunca se viu na história das eleições presidenciais no Brasil, novela tensa que toma a imprensa como grande palco. Aquele evento, que “sem almas” provou-se não poder ser um mero teatro das representações políticas no campo da arte, cujo desafio da arte articulada à política mostrou ser mais forte do que colocar ambos conceitos lado a lado e chamar-lhes “binômio” – com a finalidade de congelar e tentar extirpar toda deformação da potência desse encontro –  tornou-se temporariamente um território possível da arte como política.  Mas muito pouco se sabe sobre isso.

Em 2010 temos a 29ª edição de um evento que começou em 1951, cujo Presidente Perpétuo não é ninguém menos (ou mais) que Francisco Matarazzo Sobrinho. O evento nunca deixou de causar controvérsias em um círculo de produção, visto que sempre dependeu de investimentos da classe industriaria de São Paulo. Este ano, após duas edições em “crise” institucional e financeira assumida publicamente na concepção curatorial de Lisette Lagnado e de Ivo Mesquita e Ana Paula Cohen (em 2006 e 2008), se reinstaura como evento de sucesso, tal como esperado por seus patrocinadores e por aqueles que organizam atos de poder submetendo obras de arte a um discurso. E sabemos que há maneiras e maneiras de fazê-lo, de forma a ativar ou desativar a potência em cada obra. Atravessada por distintos contextos políticos e econômicos nesses 60 anos, a Bienal parece sofrer hoje, mais ainda, de uma negatividade que não se pode nunca se afirmar. O segredo de um controle que faz colocar muito longe as possibilidades críticas de fato, de forma a impedir que ali sejam sediados dissensos, enquanto deveria sediar posicionamentos não ideais, mas atuais, em relação ao circuito de produção cultural, às instituições jurídicas e às instituições de fomento garantindo autonomia para a realização das obras e intervenções (a Bienal é paga via Lei Rouanet e Fundo Nacional de Cultura, totalizando R$ 46 milhões).

Nesta Bienal somos espectadores de um apaziguamento denunciado inúmeras vezes nos artigos que atestam esse interdito. Uma espécie de encenação cercada de malemolência institucional, “tapinhas nas costas” e discursos rebuscados, que eu chamo agora de um teatro demagógico das relações institucionais que, não se sustenta, visto que se torna ainda mais frágil depois da crítica institucional. Digo que somos espectadores também por que estive em três situações especiais em São Paulo e observei de perto como se elabora e como se maquina um evento deste porte. iii O evento pareceu, infelizmente, não aprender com as práticas artísticas atuais ainda que sedie alguns projetos interessantes (como o Projeto Mutirão de Graziela Kunsch e a biblioteca de livros de artista de Marilá Dardot e Fabio Morais, entre outros), não aprendeu a dialogar nem mediar discursos na forma de um conhecimento colabotarivo – mas isso é outro assunto, ou outra utopia.

Brigada Argentina por Dilma

Apenas um clandestino como Roberto Jacoby, artista que atua desde os anos 60 de forma contundentemente política (e polêmica), poderia romper com o “bom-mocismo” característico de uma brasilidade (ou “ditadura da felicidade!”, diria um personagem de Sergio Bianchi), em que se festeja praticamente todo e qualquer feito, sobretudo aquele que se produz em um discurso seguro, maquiado de samba, só que sem gingado. Os curadores Moacir dos Anjos e Agnaldo Fariasiv, que provocam o congelamento no binômio “arte e política” como enunciado principal de suas escolhas, justificam essa abordagem nos contextos ditatoriais de cerca de trinta anos atrás, ou seja, afirmam as ditaduras de estado como a negatividade maior que engendraria modos estéticos. O recorte, contudo, promove um espaço quase árido de debate porque ocorre de forma topográfica (de topo mesmo, e não de campo) para o qual não se pode dispender energia de forma a tentar responder, visto que não há um discurso ou posicionamento problematizante que sustente essa abordagem (reitero, não parece haver no espaço da Bienal um debate colaborativo, ainda que este se torne o território de confrontação de discursos e historiografias sobre arte e política em que a peleja é também a da “verdade” e da autoridade sobre a política). É, em parte, nas ações dos curadores e das equipes de produção e segurança do megaevento que encontramos o outro lado do enunciado. Em fatos. O desentendimento do que provoca e do que pode provocar aquela articulação desejada, tomada primeiro como o “laranja” de uma operação de produção de valor para tentar manter a Bienal de São Paulo num calendário anual de exposições da arte contemporânea internacional e reatar com os patrocinadores;  articulação que depois se faz incontrolável a ponto de testar o evento e mostrar que ele mesmo, quase por inteiro pode não ter alma, ao imprimir ações de controle e violência dentro do prédio da Bienal. A aridez desse território reflete e ramifica os preconceitos encenados nas classes sociais brasileiras – cujos cortes elitistas reaparecem no período de campanha eleitoral com uma força brutal e gritam como gritaram a Jacoby, que ele “não era artista, mas sim um socialista, um artista de merda!”

Em Walter Benjamin, que escreveu há quase cem anos sobre os Surrealistas, encontro: “Porque também na pilhéria, no insulto, no mal entendido, em toda parte em que uma ação produz a imagem a partir de si mesma e é essa imagem, extrai para si essa imagem e a devora, em que a proximidade deixa de ser vista, aí se abre esse espaço de imagens que procuramos, o mundo em sua atualidade completa e multidimensional, no qual não há lugar para qualquer ‘sala confortável’, o espaço, em uma palavra, no qual o materialismo político e a criatura física partilham entre si o homem interior, a psique, o indivíduo, ou o que quer que seja que desejemos entregar-lhes, segundo uma justiça dialética, de modo que nenhum dos seus membros deixe de ser despedaçado.”v Eis que o espaço dilacerado da Bienal vai sofrer a tentativa de um “remendo”; e amaciar, apaziguar, fazer esquecer se mostram atributos estranhos para uma Bienal sobre arte/política.

Em 23 de Outubro foi realizada no Rio de Janeiro uma conversa entre Moacir dos Anjos, Cildo Meireles e Carlos Vergara, no Instituto Moreira Salles (IMS). vi  A situação pretendia discutir sob a prisão do mesmo “binômio”  Arte e Política “as relações entre arte e política [que] são cada vez mais atuais no debate cultural contemporâneo.” Contudo, a negatividade de fato atuante, aquela da economia, novamente trouxe uma indisposição de fazer ou de pensar a arte como política.  O texto segue: “Em uma época sem inimigos públicos ou ditaduras, a relação de artistas e intelectuais com a ação política torna-se difusa, porém permanece poderosa.” Contudo, nenhuma análise atual chegou a acontecer naquele auditório e não se problematizou sequer os eventos que deram um pouco de vida à Bienal. Minha pergunta que ia trazer um pouco desse outro grito foi cortada pelo “limite do tempo”, ao que respondi, ironicamente: “- Censura!”. O próprio trabalho de Cildo Meireles criado para a Bienal  – o abajour – era mais uma peça no teatro das representações políticas. Não se disse, por exemplo, que três homens já haviam desistido de empurrar como literais escravos um maquinário para acender uma lâmpada.

Assim que, a história da Brigada Argentina por Dilma precisa ser contada. vii Razão evidente, já que atores do contexto cultural brasileiro manifestaram que os argentinos não poderiam discutir política do Brasil: “- Mas quem são eles para debater!?” Enquanto que o posicionamento dos argentinos era exatamente endereçar aos brasileiros a necessidade de integrar(-nos) na América Latina, no processo de esquerdas ascendendo ao poder em diversos países e ao fortalecimento do bloco como um todo. Estes e outros discursos acabaram abafando grande parte do ocorrido que, mediado pela imprensa, tomava temperaturas cada vez mais inflamadas de debate, polarizadas e ridicularizadas como vinha sendo tratada a esquerda no Brasil e a candidata Dilma Roussef pela imprensa comercial. Então eu, a partir de meu território promíscuo, de meu sotaque portenho, me coloquei ao lado dos argentinos e fomos a São Paulo. Eu e Pedro Mendes. É importante falar que antes mesmo da abertura da Bienal os amigos argentinos já procuravam fazer contato com diversos artistas, intelectuais, pessoas em geral, que quisessem se somar a um Comitê Político de Campanha, sob o título de “El alma nunca piensa sin imagen” (“A alma nunca pensa sem imagens”), a fim de que promovessem atividades no espaço. Esse convite não acontecia de forma homogênea, mas solicitava uma aproximação e um posicionamento. Era feito em termos literais: “fazer uma campanha política pró-Dilma”. Ali, naquele espaço!! Ou seja, dentro da Bienal de São Paulo! Mas, por que não?

A idéia inicial de Roberto Jacoby era deslocar cerca de 30 argentinos para compor a Brigada Argentina por Dilma, e realizar uma programação intensa que teria desde debates políticos e pesquisas sociológicas a mostras de vídeo, sessões de mágica, oficinas de serigrafia e buttons, entre outros. Vieram pessoas como Ana Longoni, Mariela Scafati, Lucas Rubinich, Diana Aichenberg, Fernanda Laguna, Daniel Joglar, e mais músicos, artistas, críticos de arte. Vieram na abertura algumas mães e avós da Praça de Maio, fundadoras do movimento mais do que respeitável (um dos primeiros a exigir publicamente do governo no período da ditadura informações sobre seus filhos feitos desaparecidos políticos). A intervenção disfarçada de campanha, e vice-versa, foi em parte secreta até certo ponto, e de repente explodiu em um ato de histeria por parte da Folha de São Paulo, em matéria publicada dia 17 de Setembro, quando Jacoby foi entrevistado e afirmou admirar Dilma e apostar na continuidade do governo do PT na Presidência.viii O texto “São Paulo Arde: o espectro da política na Bienal” escrito por pesquisadores e artistas atesta que a intervenção de Jacoby “se transformou numa máquina de produção de antagonismo entre opiniões diversas, tomando partido e impondo ao establishment artístico sua implicação numa discussão sobre o fato constatável de que, num espaço geopolítico como a América latina, existe hoje mais experimentação, mais criatividade e —em definitiva— mais esperança na área da política e do político —das estruturas institucionais ao campo dos movimentos sociais— que no sistema da arte contemporânea.”ix

A “Censura”

O discurso capturado de Jacoby, descontextualizado do campo da arte e recontextualizado na mídia brasileira, foi a deixa para que os curadores da Bienal através de sua profissional equipe, consultassem o Tribunal Regional Eleitoral (TRE) sobre a “possibilidade de fazer campanha política” em um prédio público. Ora, duas coisas precisam ser esclarecidas: em que termos uma intervenção de arte dentro de uma Bienal (de Arte) se torna uma campanha política pró-Dilma?; e portanto, não deveria a diretoria da Bienal ter sido aliada à intervenção da Brigada e responsabilizar-se por igualmente camuflar inteligente e criativamente a intervenção, defendendo-a e integrando-a à programação, inclusive como um atiçador  do contexto político atual brasileiro?

Na Petição do Ministério Público Federal, de 21 de Setembro, consta que a obra de Jaboby seria de “ficção”: “Sucede, porém, para sua surpresa, ao verificar a montagem da instalação, deparou-se a requerente com uma obra representando verdadeira campanha política, cujo espaço reservado àquele artista argentino está sendo utilizado para fazer propaganda eleitoral a favor da candidata Dilma Roussef à Presidência da República, representando o Partido dos Trabalhadores.”x Ou seja, a literalidade da imagem, foi ali produzida e ali capturada. Assim também o discurso de Jacoby. Enquanto que eu poderia passar dias e dias nessa deliciosa investigação “detetive” de quem disse isso ou aquilo primeiro, vale afirmar que retoma-se de forma geral a idéia de censura e também o seu sentido, retoma-se uma discussão sobre liberdade de expressão e sobre democracia. Oblitera-se a existência do imaginário, maquinário fantástico e sinestésico, feitor de mundos – como se fosse possível!

“A opção de retirar a obra do espaço expositivo foi comunicada ao artista na própria terça-feira em carta assinada por Salo Kibrit, um dos diretores da Fundação Bienal de São Paulo, e enviada ao G1 pela assessoria de imprensa do evento nesta quarta.”xi Agora penso: tão engraçados se tornam os termos artísticos quando “traduzidos” em jurídicos!  Os artistas e brigadistas são tomados por “cabos eleitorais”, como diz a Petição em tom policial: “constataram a atividade de 25 cabos eleitorais distribuindo panfletos, adesivos e buttons do PT e de sua candidata à Presidência da República.” Ah! Ah! Mas o PT de São Paulo, ele mesmo, não quis apoiar a “campanha”! O desenrolar dos fatos volta, novamente, à Folha de São Paulo: “Agnaldo Farias, curador ao lado de Moacir dos Anjos, diz que a Diretoria recebeu notificação considerando a obra ilegal”; “A gente não pode contestar a decisão porque corremos o risco até de sermos presos”, declaração publicada também em 21 de Setembro.

Na noite de abertura da Bienal, quando todos usavam suas camisetas ali mesmo serigrafadas “Dilma”, com uma bela estrela amarela, e onde se lia nas costas “Brigada Argentina por Dilma”, começa outro teatro: o das manifestações desreguladas, inflamadas, delirantes. Como poderia uma intervenção/comitê de campanha (e vice-versa) provocar tantas emoções e manifestações? Pisoteios, insultos, indagações, desgostos. Um público agressivo e nem tanto irônico, que também trouxe um pouco de sua impaciência em discutir publicamente política. Com imagens destes “atos” integrantes da Brigada editaram um vídeo, atualmente disponível na internet. xii O clima de hostilidade estava instalado há alguns dias, na verdade, visto que o produtor da obra de Jacoby já tratava muito mal aos argentinos e demorava-se em resolver coisas, crachás, e mais detalhes. No dia seguinte a imagem gigante de Dilma Roussef e José Serra plottada na parede do espaço dedicado ao trabalho foi coberta com papel pardo. E os argentinos, por sua vez, que não conseguem dizer “Dilma” por dificuldades fonéticas, criaram nova logo com “Vilma Vence!” estampada nas camisetas viradas ao contrário e, por isso, não recolhidas pela equipe da Bienal como os outros papéis que tinham qualquer pista censurável.

Como parte da programação, foi realizada uma conversa, no dia 25 de Setembro, no “comitê de campanha”, destinada a pensar “O que faz um espaço de campanha eleitoral em uma Bienal de Arte Contemporânea?”; conversa à qual se integraram eu, André Mesquisa, Gavin Adams, Suely Rolnik e Cristina Freirexiii, Juliana Dornelles, Pedro Mendes, Isabel Ferreira, e mais gente (um breve debate sobre a montagem despotencializadora da obra de Tucumán Arte também foi iniciado). O objetivo da conversa, chamada por Ana Longoni, e recebida com resistência por alguns (“Porque produzir pensamento em um espaço da Bienal? Porque pensar a política partidária?”), evidentemente foi se desviando para uma discussão sobre a cobertura da imagem. A conversa foi interrompida pelo barulho do o protesto dos veganos, que pediam a libertação dos três urubus (pretos) usados na obra de Nuno Ramos (“Bandeira Branca”), que culminou em seguida com a pichação da obra por parte de Cripta Djan (que participava da Bienal como artista, no projeto Pixo SP). Se configurou uma manifestação coletiva que mostrou que não apenas ali, no espaço “dos argentinos” se pensava a Bienal de forma diferente; e diferente, sobretudo, dos Terreiros organizados pela curadoria – que deveriam proporcionar instâncias investigativas das obras.xiv

Nesta noite, após cenas de agressão a outros pichadores e seus amigos por conta dos seguranças – que se via já tensos e há dias desejosos de usar sua força – , a polícia foi requisitada para “evacuar” o prédio da Bienal, e nós brigadistas e debatedores vimos dali do terceiro andar um bloco de mulheres e homens que numa coreografia monótona formava um bloco em tom cáqui, descendo a rampa solicitando a saída do prédio. Não se pode esquecer, e a Bienal não pode esquecer, que o grafiteiro-feito-artista que pichara um protesto sobre a obra de outro artista não poderia ser criminalizado – e isso ao menos a curadoria da Bienal entendeu. Digo, ele não poderia ser criminalizado não porque tinha sido “feito artista” no contexto da Bienal (visto que integrava a exposição), mas porque o direito ao manifesto era legítimo e não era individual, era um modo de expressão não agressivo que dava conta de produzir, para fora de si e diante de todos, um grito. Jamais presenciei a Bienal viva como naquele dia, naquelas curvas reatualizadas do Pavilhão, por onde corriam corpos com câmera e se produziam movimentos e sons de intensidades distintas. Os corpos se tornaram irados e suados.  Eu mesma gritei.

No domingo (dia 26), cheguei às onze da manhã. A assepsia devolvida ao espaço da Bienal expunha o modo quase simpático com que são treinados os seguranças de um evento onde se protegem obras valiosas, em que os sponsors, colecionadores e o “público em geral” (disciplinado) trafegam livremente, e já não se sabe de mais nada. “Ouviu-se falar.” Nesse mesmo lugar, no final dia a trupe do Teatro Oficina de Zé Celso Martinez “adaptava” à sua maneira o caminhar contra a multidão religiosa, de Flávio de Carvalho nos anos 30, à batalha dionisíaca da vida subindo e descendo a rampa do Pavilhão. Naquele domingo a Brigada Argentina resolveu limpar completamente o espaço que usaram, deixar na parede um pequeno histórico das matérias de jornal (do Brasil e da Argentina) como vinha fazendo dia-a-dia, e pregar o manifesto “São Paulo Arde” escrito a muitas mãos sobre a “censura” com assinaturas de apoio. A televisão desligada. O palco vazio. As cadeiras enfileiradas. É bom lembrar, usavam “Vilma Vence!” nas camisetas ao contrário e distribuíam algumas aos brasileiros simpatizantes.

Eles, os argentinos da Brigada, não queriam confundir ao ponto da indistinção a arte e a política, como disseram os curadores. Octavio Zaya, crítico e curador, em uma crítica ao projeto destes, escreveu que Farias deixou-se confundir entre a “política e o político”, o que perigosamente oblitera qualquer distinção entre o que Jabocy está lidando (política) e aquele outro terreno de encontro entre política e a polícia (o político), onde direitos e liberdades confrontam a ordem de controle estabelecida.”xv De fato, o estado de polícia estava instalado, como eu havia apontado no meu caderno naquela conversa do dia 25. Esse estado se estenderia à declaração assinada por dos Anjos e Farias, em resposta ao manifesto e à ação de Jacoby. A imagem, agora, Mariela contou, está descoberta. Mas eu quero saber onde e como se fala do acontecido…

Se ao promover um debate que pede 30 anos de espera para poder acontecer, e ao oferecer o fundo de um copo de água para nadar, como não pensar que há aí uma imagem de pessimismo, de uma limitação que não mobiliza o que há de potencialmente disruptivo na arte? Em trabalhos, obras, ações? Se alguns podem dizer que as ações jacobyanas foram oportunistas, ou seja, que ele arquitetou a cada passo o caminho para uma polêmica, precisamos assumir que isso também é parte de sua obra, e isto não pode ser descartado em uma história que já considera ficções construídas ao longo de anos como as obras de Marcel Duchamp e Marcel Broodthaers. Sabe-se que Jacoby disse aos curadores que eles só lidavam com Hélio Oiticica por que ele já está morto. Ele disse na conversa do dia 25 com a mesma contundência (eu imagino) que os artistas jovens brasileiros são muito mais conservadores do que a sua geração nessa idade. Seguramente Jacoby conhece a afirmação de Benjamin, de que, “na verdade, trata-se muito menos de fazer do artista de origem burguesa um mestre em ‘arte proletária’ que de fazê-lo funcionar, mesmo ao preço de sua eficácia artística, em lugares importantes desse espaço de imagens. Não seria a interrupção de uma ‘carreira artística’ uma parte essencial dessa função?”xvi Jacoby não tem medo de perder-se. E, não me parece possível cobrarmos do artista a genialidade de uma idéia isolada do seu contexto, assim como não cobramos do curador a autoridade primeira do discurso sobre arte/política. Ou seja, que tipo de ética é esta que se quer reaver quando se critica as ações de Jacoby?

Assim que ele e toda a Brigada nos deixaram nesse teatro de vozes agora um tanto esquizofrênicas, em que tivemos que depois de quatro anos novamente nos ouvir, nos reposicionar, perder os cabelos, estudar, julgar e apontar, censurar, mandar parar, defender… Enfim, percebo que ao final de uma quase batalha a Brigada teve sucesso. Foi Vilma quem venceu, mas muito poucos vão querer assumir, e sequer, festejar.

1 Em 10 de Outubro de 2010 os curadores-chefes da 29ª. Bienal de Arte de São Paulo emitiram um “Comunicado” (http://www.29bienal.org.br/FBSP/pt/Noticias/Paginas/comunicado-dos-curadores-chefes-da-29a-em-resposta-a-texto-de-Roberto-Jacoby.aspx ) referente ao ocorrido relacionado à intervenção de Roberto Jacoby e a um texto escrito a diversas mãos como resposta à ação da produção do evento, “São Paulo Arde: o espectro da política na Bienal”.

2 Do texto de apresentação do evento: “A Fundação Bienal de São Paulo é uma das mais importantes instituições internacionais de promoção da arte contemporânea, e seu impacto no desenvolvimento das artes visuais brasileiras é notadamente reconhecido. A Bienal de Artes, seu mais importante evento, não apenas apresenta aos diferentes públicos a produção de artistas brasileiros e estrangeiros, mas também atrai os olhares do mundo para a arte contemporânea de nosso país. Mais que isso, o evento atua como um periscópio, na medida em que quebra o isolamento de um país cujas condições socioculturais e dimensões dificultam o contato com essa ampla produção, e promove a insubstituível aproximação com as obras – cujas imagens digitais na tela do computador jamais provocarão o deslumbramento e a revelação do momento íntimo diante da arte.”  www.fbsp.org.br

3  Em março e abril participei da residência artística do projeto Capacete (as residências organizadas por Helmut Batista são parte da programação da Bienal), em julho assisti a apresentações de alguns artistas que integram a Bienal (parte do programa realizado no Teatro de Arena, coordenado por Helmut Batista e Jorge Menna Barreto); e em outubro dois dias depois da abertura aos curadores, artistas, sponsors e convidados estive junto à Brigada Argentina por Dilma por quatro dias.

4  Curadores associados: Fernando Alvim (Angola), Rina Carvajal (Venezuela / Estados Unidos), Yuko Hasegawa (Japão), Sarat Maharaj (África do Sul / Reino Unido) e Chus Martinez (Espanha); e assistentes curatoriais: Ana Maria Maia, Diego Matos, Ligia Afonso, Paulo Miyada; responsável pela programação dos Terreiros: Pedro França.

5  BENJAMIN, Walter. “O Surrealismo. O último instantâneo da inteligência européia”. Em: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense, 1994. (p. 35) (grifos meus)

6  Encontros Contemporâneos com a Arte http://encontros.art.br/sabados-no-ims

7   http://brigadainternacionalargentina.blogspot.com/

8   Matéria disponível agora em http://www.ramona.org.ar/node/33955

9  Escrito por pesquisadores, historiadores de arte e artistas.  Difundido em redes de email.

10  “Em resposta à Bienal, a PRE-SP revelou que a exibição da peça pode caracterizar crime eleitoral com base no artigo 37 da lei 9504/97, que proíbe a “veiculação de propaganda de qualquer natureza, inclusive pichação, inscrição a tinta, fixação de placas, estandartes, faixas e assemelhados” em bens cujo uso dependa do Poder Públicos — a exposição acontecerá no Pavilhão Ciccillo Matarazzo, no Parque Ibirapuera, local que se enquadraria na classificação.” http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/09/obra-com-fotos-de-serra-e-dilma-e-coberta-na-bienal-de-sao-paulo.html

11 idem.

12  http://vimeo.com/16063149

13  Alguns de nós faz parte da Red Conceptualismos del Sur  http://conceptual.inexistente.net

14  Texto da página da Bienal: “Bienal Estendida: O projeto aqui anunciado não se esgota na apresentação de um conjunto articulado de obras, embora este seja, é evidente, seu núcleo e seu lugar de destaque. Tampouco se comprime apenas nas datas em que a exposição estará aberta. A 29ª Bienal de São Paulo se estenderá a várias outras partes, e começa desde agora. Por meio de seu programa educativo, de atividades discursivas, de residências artísticas e de seu website, ela se afigura como um projeto múltiplo que aposta na arte como forma de conhecer e mudar o mundo de uma maneira única.”

15  http://art-agenda.com/agenda/ view/87

16  BENJAMIN, 1994. Op. Cit. p. 34


*Cristina Ribas atua como artista e pesquisadora em arte, política, história da arte e práticas artísticas contemporâneas




Movimento dos Sem SatéliTe (Bruno Tarin)

quinta-feira, novembro 25th, 2010

Bate-Papo Online sobre o Movimento dos Sem SatéliTe (MSST)
com Bruno Tarin, Bruno Vianna e Ricardo Ruiz
29/10/10 e 30/10/10

tarin: Bom, então pra começar daria para você nos explicar essa sigla MSST

vianna: o movimento dos sem satélite com certeza faz referência a movimentos sociais
especialmente os que lidam com ocupação – rural como o MST, urbana como o movimento dos sem-teto isso ao mesmo tempo que coloca o msst como uma vanguarda, um movimento que poderia propor ações de desobediência civil mas tb expõe um problema do movimento, afinal esses aparelhos não são territórios facilmente ocupáveis o msst estaria lutando pela liberdade de comunicação. Mas é bem mais do que isso

tarin: bom o mst como vc mesmo falou tem uma atuação na área rural o movimento dos sem-teto na área de habitação o dos sem satélite estaria lutando pelo oq?

vianna: ei, tarin, vc tem que dizer que eu não tô falando como integrante ou porta voz do msst viu?

vianna: é uma visão minha

tarin: já tá dito

vianna: beleza 🙂

vianna: mas voltando ao movimentos, eles lutam principalmente por uma autonomia, uma soberania popular se vc pensar nos objetivos mais recentes do mst, eles já tão ultrapassando a questão de soberania alimentar e pensando numa soberania energética fazer álcool para os próprios tratores então o que é interessante do msst é pensar numa autonomia de comunicação. Existem experiências muito bacanas de redes autónomas locais de internet mesmo como o guifi.net, que cobre grande área da catalunha mas como levar isso a uma escala global?
O satélite é uma solução, mas colocar satélites novos no ar, como o ruiz disse, seria uma incoerência com outros princípios do movimento uma ecologia do espaço aí entra a ocupação satelital, que é algo que ocorre de maneira um pouco naif nos satélite bolinha

tarin: vianna o MSST me parece uma crítica a própria idéia de movimento “organizado”, centralizado e com bandeiras unificadas. Como você mesmo citou que essa entrevista é uma visão sua me parece que o próprio MSST trabalha nas ações locais buscando um fluxo global ou intergaláctico, priorizando a pluralidade das ações individuais como você vê essa questão dos movimentos atualmente e principalmente movimentos como o MSST que se dão através da internet

vianna: exatamente o que o msst faz ao propor essas… não-bandeiras, sei lá, é expor essas incoerências, expor essas impossibilidades, catalizando idéia, propostas, o msst inspira as vezes expira tb

ricardo: as vezes transpira

vianna: transpira, vc pensa que o território dos satélites geoestacionários é a linha do equador, é onde a terra transpira mas teria que conspirar mais

tarin: opa mas então ontem terminamos o papo falando sobre organização e movimentos atualmente
e como o MSST se posiciona dentro do fluxo de resistência global. Vianna vc dizia que é necessário conspirar mais

vianna: acho que o msst é uma super plataforma para conspiração, de criação de cenários imaginários

tarin: dos futuros inimagináveis?

vianna: que vão terminar influindo nesses futuros. Quando se mistura o real inimaginável e o imaginário possível, temos uma arma super forte de contra informação.

vianna: Meu tio é eng. aeronáutico, ele mandou o meu filme satélite bolinha para um colega especialista em satélites, esse colega mandou um email um pouco agressivo, ele viu o filme e disse que era impossível que um satélite americano fosse usado para bater papo e que um brasileiro lançasse um satélite por meios próprios. O que estou querendo dizer é que essas informações mexem muito com as pessoas. Estamos derrubando ceticismos!

tarin:Vianna vc tá falando de satélite bolinha explica melhor o que é isso e já vou aproveitar pra te perguntar sobre a relação que seu novo filme de nome satélite bolinha estabelece entre comunicação alternativa, radical e autonomia versus a tecnocracia. Desobediência civil diante da falta de acesso e burocracia. Existe algum paralelo com o MSST?

vianna: O satélite bolinha é um apelido dado por brasileiros a um satélite militar norte americano, alguns radioamadores perceberam que o acesso a esses satélites não era bloqueado e essa informação se disseminou. Ter acesso a esse satélite significa ter acesso a uma ferramenta de comunicação incrível, ele tá numa área super privilegiada no espaço, numa posição estacionária em relação à terra, isso quer dizer que é muito fácil apontar uma antena pra ele e transmitir e o que ele faz com sua transmissão de rádio é retransmitir ela pra meio mundo! Daí você pode bater papo de qualquer lugar do brasil pra qualquer lugar nos EUA por exemplo ou usar como uma rádio de notícias, como as FARC faziam (ou fazem, talvez)

tarin: ou seja a partir do que já existe criar novos meios de se comunicar, de fazer política, outras perspectivas e possibilidades de possível para tecnologias que já existem e estão em pleno uso. Isso tem tudo haver como todo um fluxo pela reapropriação tecnológica vêm lutando para dar novos entendimentos a antigas ferramentas.

vianna: sim, a tecnologia tá aí, e o mais importante, a demanda é muito grande. Por isso todo o arsenal legal contra as tecnologias livres de comunicação. Não se trata só reciclagem de antigas ferramentas mas imaginar novas e isso me parece ser uma das ações mais conspiratórias do MSST

vianna: o que ocorre, claro, é que as transmissões são abertas e monitoradas pelos EUA

tarin: Vianna deixa aqui o link para o seu filme, assim quem se interessar pode ver melhor a questão dos satélites bolinhas

vianna: http://www.youtube.com/watch?v=veDZfejpbs8

tarin: vamos entrar então no MSST que é um movimento de movimentos, um fluxo e não uma ilha de conhecimento, cultura e resistência. Me parece que o MSST se coloca no meio. Nos meios de comunicação mas também no entre arte e técnica. Entre o imaginário e o inimaginável. Como vc vê então a criação dessas novas ferramentas dentro de um movimento como o MSST. Como arte, software livre e gambiarra caminham junto?

ricardo: eu acho que ele se coloca nas bordas

vianna: é uma máquina

ricardo: eh a borda

vianna: um processador, não de computador, mas de cozinha mas é máquina de guerra tb

tarin: arte, software livre e gambiarra não caminhariam juntos mas estariam completamente misturados criando uma nova forma. O MSST seria uma máquina de força centrífuga?

vianna: é isso, porque essas máquinas tem o poder de reciclar

tarin: Me parece que o MSST então poderia ser visto como uma máquina de pegar periferia (borda) e centro e misturar tudo, como as FARC fazem ao se utilizar de tecnologias militares americanas que sistematicamente os oprimem. Uma reciclagem, um novo uso para velhas formas.

vianna: é, mas a FARC trabalha num plano muito menos imaginário. O MSST quer alterar os fluxos de idéias, pensamento.
Tem uma coisa interessante em relação ao bolinha que é bom voltar, o fato dele ser aberto traduz uma cultura tecnológica que tem muito a ver com a internet, ele é o mais simples possível, um mero repetidor. Se pensarmos que ele foi lançado no começos dos anos 80, quando tava se desenvolvendo a internet pode-se dizer que tem um parentesco mesmo, afinal o bolinha e a internet são crias dos militares americanos que depois foram apropriados de maneira muito mais interessante

tarin: foram hackeados

vianna: mas o fato de ser aberto também favorece a monitoração aí é um pouco a analogia da favela, de ruelas fechadas, contra os boulevards, abertos e vigiáveis ou da kasbah. Os americanos estão sempre vigiando esse satélite. e se eles conseguem rastrear a posição que qualquer celular no mundo, que dirá de alguém que usa o bolinha. Isso deu no departamento de defesa gringo ter mandado uma lista de endereços de usuários do bolinha pra nossa polícia federal e uns 20 deles foram indiciados. Uma operação “conjunta”. Mas o mais interessante, e isso não tem no documentário, é que eles foram indiciados pela lei de telecomunicações, por usar frequências que não podiam estar usando ou seja, a mesma lei que fecha rádios comunitárias.

tarin: Contudo o MSST assim como as pessoas que utilizam os satélites bolinha continuam lutando através do hackerismo e da reciclagem de matéria e idéias pela liberdade e por novos futuros inimagináveis

vianna: então de maneira inconsciente – ou não, nunca consegui falar com um dos usuários do bolinha – eles estão se juntando aos que propõem a ocupação das ondas do ar, a apropriação cidadã do espectro etc

vianna: Mas acho mt bonito o MSST atuar no córtex, as bandeiras do MSST instigam ações oníricas

tarin: como a astrologia artificial? que se baseia no movimento dos satélites como forma de alteração das ações e comportamentos humanos.

vianna: é isso! Pensar na influência dos astros artificiais, porque a influência deles é real e imaginária. Real, porque pessoas são assassinadas por robôs controlados por satélites em guerras e outros eventos, fora todos os efeitos que os satélites nos causam. A realidade virou pesadelo de ficção científica

tarin: e também imaginária, mágica, uma tecnomagia?

vianna: isso. Porque os satélites se somam a uma tradição tecnomágica da humanidade

tarin: códigos binários que falam com os orixás e que conversam com os elementos da natureza

vianna: quando vc nasceu podia ter um GPS em sagitário

vianna: Quero finalizar dizendo que pelo fato do MSST trabalhar no campo imaginário, ele tem que ter o mínimo de definição, como se o estatuto fosse algo do tipo – imagina você mesmo um estatuto – mas fico pensando se isso tem que estar exposto mesmo, afinal essa frase mesma não seria um estatuto?

Para saber mais sobre o MSST pode-se acessar:
http://devolts.org/msst/

Filme Satélite Bolinha de Bruno Vianna:
http://www.youtube.com/watch?v=veDZfejpbs8

Guifi:
http://guifi.net/

Para baixar o livro Futuros Imaginários – das máquinas pensantes à aldeia global
de Richard Barbrook:
http://pub.descentro.org/livro/futuros_imagin%C3%A1rios_das_m%C3%A1quinas_pensantes_%C3%A0_aldeia_global

Texto de Glerm Soares sobre o MSST comentando a conversa acima

A sigla MSST já existe como uma brincadeira desde os primeiros encontros de conhecimentos livres promovidos pelo ciberativismo midialivrista brasileiro como uma espécie de chiste sobre a condição de luta de classes na tecnocracia – enquanto os donos do maquinário e do capital que permite a realização da tecnologia sublimam o fetiche tecnológico e inventam seu consumo, nós que estamos entre os que constroem o simbólico e a linguagem computacional de maneira mais poética e apaixonada tentamos encontrar uma unidade entre aqueles que utilizam a tecnologia como meio para sua expressão subjetiva mais urgente e aqueles que expressam-se inventando a computação da mesma forma.

É importante atentar para o fato que MSST no fundo não é sobre satélites ou computadores e que não reivindica tecnologia e sim questiona como podemos compreendê-la sem ser consumidos por ela. É sobre a vertigem de ver a história repetir-se como farsa, do risco constante de uma busca por conhecimento ser materializado em consumo do fetiche tecnológico deixando a descoberta da faísca perder-se no caminho. O motivo declarado em manifesto – “Construiremos nosso próprio satélite – ou não?” – É expressão dessa vertigem: ao construir o satélite, ou ao desenvolver técnicas singulares para uma comunidade informatizada passamos a ter acesso a um poder que corrompe na medida que são ferramenta potenciais para manutenção de atuais canais de alienação, sobretudo no fetiche da industria da computação e da comunicação. É preciso entender a computação como linguagem natural, para além dos objetos que a indústria transforma em “necessidade” e ergonomia atrofiadora do dia-a-dia urbano.

Outra coisa que caracteriza esse movimento é que ele vai se fortalecendo como um movimento sem fronteiras. Passou também a ser uma forte identidade de diálogo com alguns grupos de língua castellana, catalana e italiana de origem latino americana e européia. Uma iniciativa do MSST vai também reproduzindo-se no forúm de ciberativistas latinos n-1 : https://n-1.cc/pg/groups/36140/msst-movimento-dos-sem-satlite/

Peço então que atentemos sobretudo sobre o caráter coletivo do movimento, que busca uma identificação de pares que percebem-se na mesma condição: uma ponte entre os que conhecem os mecanismos da indústria e sociedade da informação mas percebem um papel de reverter o ritmo competitivo para uma contemplação apaixonada e não fetichista da tecnologia e curiosos sem acesso ainda a este conhecimento. E a importancia de perceber as pessoas no entorno que vão construindo e nos meios de subsistência dentro dessa percepção comum de um conhecimento não tecnocrata sobre a computação e sua potência de construção do simbólico e imaginário, é o que guia este movimento.




O teatro para além dos eixos (Atílio Alencar & Leonardo Foletto)

quinta-feira, novembro 25th, 2010


Atílio Alencar de Moura Corrêa e Leonardo Foletto

Integrado ao Circuito Fora do Eixo, o Palco Fora do Eixo surgiu no início de 2010 a partir da necessidade de agregação e potencialização dos grupos teatrais independentes de todo o país, a exemplo do que vem acontecendo em anos recentes com a música. Num país de dimensões continentais e com tamanha exuberância cultural, um dos grandes desafios que se apresenta – e que se mostra indissociável do processo de formação de público – é justamente a criação de rotas de circulação viáveis e que democratizem o acesso aos espetáculos, numa realidade em que teatro ainda parece sinônimo de arte elitizada ou restrita aos círculos herméticos de pesquisa na área. Assim, é no mínimo ousada a proposta dos coletivos que engendraram o PFE: resgatar – sem cair na cilada fácil da caricaturização oportunista – o sentido mais radical da arte popular, adequando esquetes, espetáculos e performances à locais e públicos os mais diversos – e quase sempre distantes do que é tácitamente aceito como imprescindível em termos de condições estruturais. Pois foi ali mesmo onde a precariedade parecia configurar um obstáculo, que a criação coletiva viu uma veia potente a ser explorada. Armazéns abandonados, bares, praças e outros palcos provisórios passaram a ser encarados como zonas autônomas temporárias, numa lógica de ocupação produtiva e prazerosa marcada pela mobilização festiva, bem ao encontro do que descobrimos ao revirar as raízes do teatro ocidental. Não é a toa que uma das ações do PFE que mais vem chamando a atenção leva o nome de Ditirambo – alusão direta às celebrações dionisíacas que banhavam de vinho as ruas da Grécia Antiga – e prima exatamente pelo excesso, pela indivisibilidade entre cultura e cotidiano. A cultura tornada, de fato, coisa pública. (mais…)




Da paisagem-trouvée ao território inventado (Newton Goto)

quinta-feira, novembro 25th, 2010

Por Newton Goto
(texto originariamente publicado na revista Tatuí)

Um montanhista sobe uma montanha porque ela está lá. Um artista faz arte porque ela não está lá.1
Se o circuito de arte é um território já posto, basta ao artista, como um alpinista, trilhá-lo.
Ou, como artista, o próprio território da arte será algo inventado.

A quase totalidade das sociedades urbanas do mundo ocidentalizado sustenta-se sobre modelos de desigualdade e controle social, por ora (pós-queda do muro de Berlim) plasmadas num neoliberalismo econômico sem fronteiras. A atuação do artista como intelectual crítico continua sendo a de revelar e desconstruir as convenções culturais que reduzem a vida à mercantilização dos desejos, burocratização e alienação dos fazeres, padronização das subjetividades, dos costumes e das linguagens. Se o mundo está muito injusto, errado, insano e doente, se a desumanidade governa, por que a arte e o pensamento simplesmente atenderiam às suas demandas como supridores de objetos específicos e alienados, alimentando com novos produtos uma gigante máquina suicida? Instaurar um novo ambiente, linguagem e realidade, é nadar contra a corrente. A contracultura e a antiarte continuam sendo necessidades contemporâneas, ou como Hélio Oiticica apontou, entre uma das seis características de uma arte brasileira de vanguarda: “o ressurgimento do problema da antiarte”2. E essa nova realidade desejada pela arte é em princípio o imaginário e o sensorial, individual e coletivo, a partir do qual é possível perceber as coisas diferentemente, agir e transformar. (mais…)




EME, o Estúdio Móvel Experimental (Ivan Henriques e Silvia Leal)

quinta-feira, novembro 25th, 2010


Ivan Henriques e Silvia Leal.

“EME, Estúdio Móvel Experimental, é uma residência móvel de pesquisa integrada em meio ambiente e auto-sustentabilidade, entre arte, ciência e tecnologia. Este projeto foi idealizado pelos artistas Ivan Henriques e Silvia Leal como uma plataforma interdisciplinar de pesquisa com foco na Mata Atlântica em torno da Baía de Guanabara. EME é um veículo itinerante no Estado do Rio de Janeiro que começou suas atividades em Setembro de 2009. Através deste projeto multidisciplinar pretende-se enfatizar a conscientização ambiental, histórica e artística do Estado do Rio de Janeiro. (mais…)




ULA, a Universidade Livre das Artes

quinta-feira, novembro 25th, 2010

1- A “ULA!” Universidade Livre das Artes reclama o direito de existir neste planeta, como um espaço de desaprendizagem contínua

2- Os saberes de cada lugar servem como zona de contaminação para a ULA! ,sobretudo em ambiente externo ,pois é lá que reside “o saber e o sabor” em “tempo real” .Portanto, a ULA! é também uma extensão da rua,assim como da escola de rua (ação já desenvolvida por integrantes da ULA!) . A rua não pode servir de álibi para conter os anseios da população, mediante o uso da “máquina midiática de fabricar medo” ,bem como os demais equipamentos de conforto para contenção da vida em casa (mais…)







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